Os sinos da catedral, as rádios AM, os jornais de domingo,
O padeiro, o bicheiro, todos comentam, todos me falam.
As manhãs são vazias, vagamente vagarosas.
Por toda a cidade obras e engarrafamentos.
Em todo caso, nada além de sexo. Em toda casa, devia ter amor.
As tardes abafadas, sem brisa, sem brilho.
Céu encoberto de nuvens, sem forma.
Informam o horóscopo na televisão do bus, inferno astral.
Todos me falam: "Ele voltou, está bem e feliz."
Então ponho um disco do Leoni pra tocar e quando chega Os Outros eu só ouço minhas verdades.
Eu leio livros chatos, canto outras músicas, ponho água pra ferver, café pra coar, penduro as roupas no varal, passo pano no chão do quarto, passo as roupas que já estão lavadas, passeio com o cachorro que eu nem tenho, planto feijões no pote de margarina, pago um chá pra um mendigo, faço uma oração, varro a calçada, ponho o lixo pra fora, forro e desforro a cama, tomo cinco banhos em menos de duas horas, fumo um maço de cigarros, tomo meus remédios, corto as unhas.
Eu não consigo te esquecer.