quinta-feira, 17 de julho de 2014

chaga

Sou dominado, desde o acordar até o momento em que sou atingido, soterrado por toneladas de pensamentos, fantasmas e arrependimentos. O travesseiro invoca, recolhe e armazena todos os meus medos e frustrações, de maneira que toda noite, quando deito-me, como numa rotina infeliz, se é que existe alguma agradável, eles voltam. Se a vida segue um percurso, cheio de caminhos, alguns tortuosos, outros floridos, há os que as portas são estreitas e também aqueles que se findam em belos portais, largos, dourados. Estou certo que me perdi por todos esses e há uma especie de cegueira, um venda, almas vendidas, não sei ao certo distinguir o coerente do equívoco. E não há como dar quaisquer passo, não sem saber pra onde vou. Nisto também se perderam meus objetivos. Não sei onde quero chegar. Inerte observo o tempo passar, os fios brancos já povoam meu cabelo, a ausência de movimento já atrofia meus ossos, meu sobrepeso ganha com isso. Não há bussola, as rosas apartaram-se do meu redor, inclusive a dos ventos. E nos laços e chicotadas dadas pela realidade concluo minha dor. Igualmente culpados os chutes dados pelas curtas pernas das mentiras que contei. Das quais sinto-me prisioneiro até hoje. Arrancam-me os sorrisos, afundo-me em qualquer produto que me ofereça uma fuga de tal cenário. Há também além do tempo amigos, amores, amantes, que seguiram suas vidas, alguns foram perdidos, outros poupados do meu lamento. A resposta me parece evidente, na ponta da lança, na orla da faca, no caminhar paciente de uma chaga.