terça-feira, 31 de março de 2015

31/03

nos tempos ausentes de silêncio, mas de respostas não dadas, tento decifrar desesperadamente os sinais colhidos através dos olhares e sorrisos endereçados à mim, ou ao léu, não há como saber. então, os trago para cá, pra esse lugar lotado de notificações vazias, santuário de toda minha carência e solidão concreta; todos os nãos colecionados alimentam meus traumas, vira avalanche. e essa calma que tanto ouço falar, porque se afastas de mim? a paz que tenho posto em dúvida, dado às manchetes, nem aqui no meu quarto, nem no teto, nem no interior eu tenho visto. E a sujeira que ambiciona a alma, o rio, a cidade inteira, será que derruba o sol, ou irrita-o de tal forma que seus raios farão as horas pararem? se as respostas fossem dadas, de sincero, com gentileza, mesmo que ainda configurassem nãos, será que haveria estabilidade?

Pano de fundo

cílios azuis, planeta de mesma cor
vem na função de engolir, aceitar a minha verdade
à seco, saborear meu desespero em gostar e a sina
das correspondências que não retornam

mel, cidade pacata
paixão durante todos os quilômetros percorridos por meus olhos
flores de papel, prestes a secar
'mas obrigado por pensar em mim'

reflexo embaçado, clareza na interpretação
conchas mal acabadas, cama amanhada
duas xícaras de café e não sei o que a faz ter medo
sombras e solidão

o terror nas expectativas, a fé nas lembranças
dos sorrisos misturados, o horizonte mutante
espalhacor, o cheiro de chuva, móveis de madeira
a madrugada e o melhor despertar

saudade de toda melancolia

Medianeras

"Buenos Aires cresce descontrolada e imperfeita. É uma cidade superpovoada num país deserto. Uma cidade onde se erguem milhares e milhares de prédios sem nenhum critério. Ao lado de um muito alto tem um muito baixo. Ao lado de um racionalista, tem um irracional. Ao lado de um em estilo francês, tem um sem estilo. Provavelmente essas irregularidades nos reflitam perfeitamente. Irregularidades estéticas e éticas. Esses edifícios que se sucedem sem nenhuma lógica demonstram falta total de planejamento. Exatamente assim é a nossa vida que construímos sem saber como queremos que fique. Vivemos como quem está de passagem por Buenos Aires. Somos os criadores da cultura do inquilino. (...) Os prédios, como todas as coisas pensadas pelo homem, servem para diferenciar uns dos outros. (...) O que se pode esperar de uma cidade que dá as costas ao seu rio? Estou convencido de que as separações e os divórcios, a violência familiar, o excesso de canais a cabo, a falta de comunicação, a falta de desejo, a apatia, a depressão, os suicídios, as neuroses, os ataques de pânico, a obesidade, a tensão muscular, a insegurança, a hipocondria, o estresse e o sedentarismo são culpa dos arquitetos e incorporadores. Esses males, exceto o suicídio, todos me acometem."

20/02

Procuro querentes para pensares em mudares para lugar qualquer, pro meio do tudo, pra casas de taipa ou de fazer farinha. E recomeçar. Não que algo tenha chegado ao fim. Sim. Procuro um amor, não preciso que o tragam de volta, por nunca o tive. E os três dias também não são necessários. Sem urgência. Porém com pressa! Afinal, não busco no amor perfeição. Busco por desejantes que, como eu, pensem em desver, ou rever, talvez e sim, o mundo de um outro lugar. Talvez a China, tão contrária, entender o não como sim, no certo achar o erro, no querer estar o abandono. Chorar pra dizer que estou bem. 
Aceito sugestões de lugares, casebres - na intenção de abrigo, mobílias para o átrio vazio.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Licença pra Manoel

O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!
Manoel de Barros

quinta-feira, 17 de julho de 2014

chaga

Sou dominado, desde o acordar até o momento em que sou atingido, soterrado por toneladas de pensamentos, fantasmas e arrependimentos. O travesseiro invoca, recolhe e armazena todos os meus medos e frustrações, de maneira que toda noite, quando deito-me, como numa rotina infeliz, se é que existe alguma agradável, eles voltam. Se a vida segue um percurso, cheio de caminhos, alguns tortuosos, outros floridos, há os que as portas são estreitas e também aqueles que se findam em belos portais, largos, dourados. Estou certo que me perdi por todos esses e há uma especie de cegueira, um venda, almas vendidas, não sei ao certo distinguir o coerente do equívoco. E não há como dar quaisquer passo, não sem saber pra onde vou. Nisto também se perderam meus objetivos. Não sei onde quero chegar. Inerte observo o tempo passar, os fios brancos já povoam meu cabelo, a ausência de movimento já atrofia meus ossos, meu sobrepeso ganha com isso. Não há bussola, as rosas apartaram-se do meu redor, inclusive a dos ventos. E nos laços e chicotadas dadas pela realidade concluo minha dor. Igualmente culpados os chutes dados pelas curtas pernas das mentiras que contei. Das quais sinto-me prisioneiro até hoje. Arrancam-me os sorrisos, afundo-me em qualquer produto que me ofereça uma fuga de tal cenário. Há também além do tempo amigos, amores, amantes, que seguiram suas vidas, alguns foram perdidos, outros poupados do meu lamento. A resposta me parece evidente, na ponta da lança, na orla da faca, no caminhar paciente de uma chaga.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Ás de copas

as minhas estradas 
os meus silêncios gritantes
os meios, sem alfa, sem fim
os meios não justificados
metade é culpa minha
metade é agonia e julgamento;

os dias em que eu somos nós
os dias em que é todo mundo
os dias que são momentos, não horas
o singular plural, todo mundo tem seus nós
a eternidade não nos pertence, até que a morte nos una;

o desgaste e o descarte
de tudo que é cartesiano, do que se apresenta como insano
mas é fuga e desespero do metódico e racional
revolta difere de rebeldia

a pele, a lágrima, a flor, 
há tempo, há conflito, atrito,
abraço, e pra mim há deus,
à três (ou quatro), arco-íris, ato,
hiato, a cidade, há tempos, diáspora, adeus.