Meu avô, um pescador, minha vó contava que um dia a maior cobra do mundo se enroscou na sua galocha e ele conseguiu se livrar da maldita. Trazia piabas nos potes de margarina, e esse era o alimento para toda a família. Meu avô era cantor, entretanto nunca me pôs para dormir com uma canção de ninar. Ele era malandro, homem dos bregas da Bahia.
Águas traiçoeiras, levaram a pobre Nina, oito anos e só. Não casou, não pariu, nem sei se viveu o tempo da primeira paquera. As plantas aquáticas enroscaram-se em seus pés e ali ela padeceu. Seus irmãos não conseguiram salva-la e eu desconfio que desde aquele dia eles não foram mais os mesmos. Eu lembro do dia, talvez eu tenha chorado.
Caminha-se pelas estradas de terra, calejam os pés. As crianças choram de cansaço, as mulheres descem as trouxas de roupas da cabeça ao chão. O sol castiga. Tangerineiras. A terra é tangerina, o horizonte é tangerina, a pele enrugada, marcada do tempo, da dor, também é. Calú, sertão. Dois dias e avista-se o riacho, dividido pela ponte por onde o trem de cargas passa. De um lado as lavadeiras, do outro as mãe-de-santo. Velas acesas, roupas estendidas nas pedras. Os meninos peixes são donos do mundo, filhos das sereias, nadadores exímios.
Batizam-se os homens, vestidos de branco encontram seu Deus. Declaram ao mundo a quem pertencem. Holocausto e ressurreição. Pássaros sobrevoam as águas. Eu sinto Deus.
Há a estrada, há a memória. Um velho homem sentado às margens do caminho, faz companhia à solidão. Ele era negro com os cabelos tão brancos. Cantava um hino antigo, contemplava o céu. Este senhor caminha até mim, beija meu rosto e me entrega uma chave antiga.
Na estrada, na memória. Na beira do rio há um baú.
Eu estive quebrado em milhares de partes. Aprisionado em espelhos, perdido entre a vaidade e meus desejos. Distante da essência de minha alma. Andei pelas ruas durante a madrugada vendendo meus corpo por um trocado qualquer, sujando minhas mãos, envergonhando meus antepassados.
Dentro do baú eu encontrei palavras gastas, pinturas antigas, receitas de família, bonecas e vestidos de chita. Eu vi retratos de família, orações e histórias folclóricas. Eu me encontrei.
Então eu desci até o rio, e o reflexo do sol nas águas me iluminava de forma especial. A brisa da tarde me envolvia, e eu senti-me tomado de nostalgia e saudade. Primeiro molhei meus pés pintados de barro, aos poucos fui avançando, até o momento em que perdi o controle do meu corpo. Eu estava totalmente entregue ao mover das águas, e quanto mais profundo eu mergulhava mais vulnerável eu me sentia.
Este era o rio da vida, era o rio do amor.
Enquanto eu mergulhava guerras foram travadas, homens maus gritavam calúnias contra mim. Porém quando se está entregue as águas, envolto na sinfonia dos mares, nada podes lhe atingir.
Somos como um rio, sou rio. Nutrimos nos uns aos outros. Percorremos continentes, cruzamos estado e países, irrigamos terras secas com sorrisos, lágrimas e afeto. Desaguamos vida nos seios de nossos amados.
Águas da vida.
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