Escrever sobre quem sou, ou alguém que seria melhor que eu? Contar minhas mentiras de bom grado, ou revelar uma criatura perfeita inspirada em meus disfarces felizes e nas facetas mais sorridentes desfiladas por mim? Quem ser além das páginas? Há uma certeza ou verdade absoluta quando tratamos de um ser ou não ser humano? Talvez a primeira verdade seja a de que não dá pra ficar relativizando tudo. Desfazendo-se de todo o fardo da sociedade nas costas do bom-senso. Certa vez eu li que os russos e um outro povo nórdico - que agora não sei ao certo qual é - fazem desnecessária a ida ao analista pois não fazem questão de esconder de ninguém que possuem um lado sombrio. É o Yin-yang se fazendo presente. Forças opostas, claras e escuras, boas e ruins, leves e pesadas, vivendo em perfeito equilíbrio. Nenhuma energia esconde a outra, mas dentro de cada uma existe um pequeno reflexo da outra, é como um bilhete.
Há um tempo participei de um discussão sobre ativismo, a discordância era sobre a funcionalidade do ativismo de sofá (termo empregado àqueles que compartilham e atuam nas mídias sociais, levando os debates, concentrando a maior parte das ações no campo virtual) em relação aos que se fazem ativos fisicamente - presencialmente-, sejam em manifestações ou na participação de grupos que possuem incidência política em conselhos, partidos e etc. Houve o consenso que as duas formas de atuação precisam coexistir, de modo que a voz desses movimentos quando em conjunto ganhariam um alcance maior, incalculável. Um ano depois assisti e participei dos grandes ajuntamentos de junho de 2013, quando a mobilização nas redes sociais levou milhares de manifestantes para as ruas e avenidas do país. Houve equilíbrio, coexistência.
Escrever sobre os amores inventados, ou os que de tão bem contados tornaram-se reais. Trazer à tona o passado, constatando seus rastros em quem digo ser, ou na essência, no intangível que há em mim? Onde se atinge uma criança? Na alma ou no caráter? Quem paga a conta quando uma criança de doze anos tenta tirar sua própria vida? Seus pais ou o homem que lhe tocou, e que também fora coagido, por um terceiro que anteriormente foi vítima, e assim a roda gira. Roda gigante, uma hora você está por cima, noutra beija o chão. Essa é a vida.
Quantos reflexos cabem num espelho? Quantos eus já deitaram-se em minha cama. Quantos já fui? Quanta gente já morou no meu peito. E os sonhos que fizeram de mim morada e alimento? Ainda habitam meu ser. Será que ainda sou?
Escrever sobre a forma assustadora que os filmes atuam em mim, e influenciam meus atos na manhã seguinte ao dia em que os assisti. Eu já acordei rainha e ralé, ontem fui a grande depressão, hoje sou felicidade. Há dias em que sou a cheeleader decadente que joga café em qualquer um e humilha por humilhar. Quantas vezes já desfilei pelos corredores da vida, nutrindo-me do fracasso alheio para satisfazer minha baixa auto-estima. Contar sobre meus arrependimentos, sobre tudo que passa em minha cabeça nas longas viagens de ônibus que faço quando preciso sair do subúrbio. Sobre os pedidos de desculpas que eu já quis, mas não consegui dar. Sobre os perdões que eu disse aceitar, mas que ainda não perdoei. Sobre os dias em que planejo fazer tudo diferente, mas que não passam de monótonos.
O que falar desses dias iguais, que passaram despercebidos, me fizeram, mas não marcaram. Das tardes em que fui de má vontade à padaria, das orações feitas da boca pra fora, de tudo que eu não lembro, mas que eu sei que existiu. Dos homens que eu amei durante o minuto em que estávamos no mesmo vagão do metrô, ou na mesma fila do banco, das contas que não paguei e do meu nome sujo, mas a alma limpa, pois devo ter feito tudo que eu quis. O que é mentira, nunca fazemos tudo que queremos, há sempre mais, é sempre menos. Eu não o beijei naquela mesa de bar, não chupei seus dedos olhando em seus olhos, não contei ao mundo que foi a Maria quem roubou pão na casa do João, e que fiz isso por fome e por amor. Eu não gritei em todas as vezes que senti vontade e disse Eu te amo muitas vezes sem saber o que é o amor. E ainda não sei, mas sinto que amo. O que falar dos motivos que me levaram a mentir ou trair, dos anos que perdi tentando ser quem não sou, é quando Sócrates faz sentindo.
Taças de vinho, xícaras intermináveis de café, tragos de todo cigarro que vier, noites em claro, folhas amassadas, arquivos perdidos, cartas queimadas, bilhetes levados pelo tempo, recados na caixa postal e ninguém escuta. Notas em celulares vítimas da obsolência programada. Eu escrevi. A tentativa de entender-me, materializar-me em palavras. Me fazer real, certo e existente. Vomitar sentimentos, traduzir desejos. E então ser lido, o momento em que minha alma beija os lábios dos leitores, quando passam seus olhos pela minha pintura.
Eu os beijo quando conto do meu avô, o velho pescador que desafiou Iemanjá num dueto de Clara Nunes se revelando um cantor malandro. Dobrou a entidade no bolso, encantou a sereia e roubando seu sexo divino, fazendo malicias. Ela o amaldiçoou, morreste em pouco tempo, tempo suficiente para passar a prosa de pai pra filho. Eu os beijo quando conto sobre minha vó Gaída, mãe de minha mãe, a mulher que desafiou a maior serpente da Bahia, se tornando assim a mais sábia de todo o Nordeste. Eu os beijo quando conto de mim menino, correndo descalço pelas ladeiras do sertão, sonhando em abraçar o mundo, e com medo de estar sozinho ali e em todo lugar. Eu os beijo no exato momento em que fizeras a leitura sobre meus amigos, loucos, com amor, fúria e desejo em seus olhares. Paixão, eu morro de amores pela intensidade de cada um de vocês.
Escrever sobre meus medos e os muros erguidos por eles. As cortinas de ferro construídas em minh'alma. A separação entre qualquer tempo verbal. A omissão. Tudo que deixei pra amanhã, até entender que o amanhã é utopia. Eu nunca o tocaria. O medo que impede meus amores e me aprisiona no platônico. O medo de perder, de ser, de mudar, de estar e permanecer. O medo que me acorda na madrugada e me faz chorar pelo escuro, pelo vazio, pela folha em branco. O medo do Papão que eu crio todos os dias. Da Cuca que atormenta minhas relações e do Monstro do Lago que me impede de mergulhar mais fundo em mim.
Escrever sobre o medo de envelhecer. Sobre o tempo e os temporais. Ter rugas e frustrações na bagagem. Por ter querido demais e ser querido de menos. A roupa não coube. Não tinha meu número, então perdi aquelas bermudas com estampa de âncora que eu tanto quis. E o menino que eu era afim só me via como amigo. Estar acima nem sempre é bom. A vida toda eu estive acima do peso e perdi tanto por isso, mesmo o peso. O peso de ser quem não quis. E ter medo de mudar, e não conseguir mudar por não ter forças. E esconder-se em camadas e camadas de roupa e sofrer ainda mais quando as estações mudam, e o verão chega. Olhar-se no espelho e não bastasse encarar a mente, a alma, a consciência, a idade e as expectativas de pai e mãe, também encarar um corpo. Peito em homem, não cabe em sutiã, nem em nada.
Sonhei que tinha matado minha mãe, esquartejado-a. Crime hediondo. E a bíblia alerta sobre o futuro, o presente. Filhos contra pais e idem. Eu tive medo. Mas era apenas um pesadelo, uma noite mau dormida. Não, eu estava matando minha mãe aos poucos. Desconstruindo todos os seus sonhos em relação a mim. Quebrando essas expectativas. Afastando-me da lei, pregando um outro Deus, fazendo dos meus desejos uma outra religião. Há uma morte, uma ruptura violenta da referência materna. Há uma necessidade de afirmação sobre tudo que foi lhe ensinado desde sempre. É hora de tirar suas próprias conclusões, gerar seus conceitos, voar, vou ar.
Meu pai quase morreu. Eu quase morri. E mesmo sabendo que corro risco de vida eu me aventuro no descaso. Ignoro instruções sobre o que fazer, evito drogas, promessas de cura. Por um lado me sinto um mal agradecido por todos os que me visitaram no hospital, oraram por mim, ou se preocuparam por um minuto que seja. Por outro sucumbo ao prazer de tragar minhas verdades enquanto ergo o cigarro, enchendo meu frágil pulmão do tóxico, das mágoas e olhares dirigidos à mim. A pleura inflama de raiva de não ser perfeito, de não estar são. Junto tudo que não presta em mim e torno motivo pra beber, bebo e afogo as mágoas.
Perco o ar, respirar é cada vez mais difícil, exige esforço sobre-humano. Dançar, correr, alongar-me é tarefa rara. Minhas costas doem e enquanto falo busco um pouco de oxigênio no falso vazio da atmosfera. Talvez seja drama, me passou pela cabeça que essa pode ser uma carta de despedida. Mas creio que ainda é cedo para isso. Ainda não fui ao Brooklyn, nem me vesti de astronauta, não casei de véu e grinalda, nem deixei ao mundo o legado presente na paternidade. Não fui uma estrela de Hollywood, nem fiz uma viagem espiritual à Índia, não fugi com o circo, nem vendi histórias nas portas do museu. Listar tudo que quero fazer é uma boa maneira de encorajar-me para ir a uma consulta.
Eu canso das pessoas. Canso dos poemas. Enjoo das músicas. Me revolto com as paisagens mas não crio intervenções em seus muros. Repito versos. Falo mal do mundo, dos meus amigos, dos meus pais. Vitimizo-me. Sinto saudade das pessoas, aplaudo o pôr-do-sol, desligo o celular, declaro amor aos mesmo amigos de quem falei mal.
Meu sonho é pegar uma mochila e perseguir a linha do horizonte. Sair pelo mundo sem endereço, sem nome, sem essa necessidade de rotular as coisas, de se entender, de compreender tudo e distribuindo definições por aí. Levantando poeira em estradas abandonadas, amando virgens em vilarejos e fugindo na madrugada, conhecendo tribos e trilhas. Será preciso ficar só pra se viver? Passar fome só pra saber a cor do saciar. Escrever impressões e memórias em mapas antigos. Estar só, estar junto. Reencontrar amigos, reviver sorrisos. Me abrigar na casa de um irmão, ser cuidado por ele. Ter vontade de voltar pra casa, ter um lar além do mundo. Encontrar lar num abraço. Ser lar. Em beijos, em toques, em transas, em broncas, em cafunés, em tardes, em traços, em pinceladas, em apertos de mãos, encontrar lar, em seios e colos.
Meu sonho é ter amigos, acima de qualquer nomenclatura. Amiga mãe, amigo pai, amigo irmão, amigo e todos vocês. Pois a amizade tem relação com a escolha. Deus se fez amigo do homem quando nos deu o livre-arbítrio. Amigo Jesus. Muitos amigos. Em todos os cantos. Em todas línguas.
Talvez a felicidade se enconda pelas brechas da rotina. Na graça do acaso. Na dúvida da existência. Na dualidade da palavra. Talvez ela seja só uma sombra, possibilitando diversas interpretações, visões e compreensões de quem ela é. Talvez a tristeza seja uma etapa da felicidade. Talvez a felicidade nem seja nosso maior alvo. Alguém implantou isso em nossa cabeça para que desperdicemos as nossas flechas mirando na felicidade, ao invés de nos focarmos na busca pelo equilíbrio. O que faz mais sentido pra mim.
Não tome sequer uma de minhas palavras como verdade.