Trovoadas e tropeços tramam contra mim, impedem o
transcender da alma. Prendem-me em trapos e tratos com o passado. Traças no
caminho que tracei como ideal. O destino trai. Tristeza é comum, disfarce é a
saída. Troca-se a pele, mudam as coleções, as estações são outras. A essência
permanece, antônimo morrer. O tempo aparenta trégua, mas não deixa de correr.
Trago o desejo, trago cigarros e os sonhos são tragados. O medo está em mim,
como um cavalo de troia. Truque de quem? Quem deseja o trono? Neste instante
sinto-me trêmulo, busco algo para tranquilizar-me, eu sempre fujo. Tranco-me em
casa, sumo do mundo, tranco-me em mim. E sinto medo, é desesperador. É nosso
desejo, não ser trivial. É o grito da minha geração. Mas não sou intrépido.
Temo a frustração.
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
Dois cafés
Eu queria casar com a Tulipa, acordar ouvindo-a cantar no chuveiro. Pegar no sono enquanto se discute sociologia. Viajar pra um lugar qualquer, num fusca laranja com o rádio queimado, um almofada de boca e uma boneca havaiana no painel. Morar em São Paulo, beber na Augusta, ir embora pro interior pra criar as crianças que seriam muitas, talvez cinco. Margô Margarida - o xodó do papai, víbora desinibida, a menina dos olhos meus, Antônio e Pedrinho (da maior importância), os moleques da casa, sorrisos e joelhos ralados de brincar de bola, bochechas rosadas e cabelos grande até quando os ombros pesarem. Tem Laura do amor, toda timidez, a menina mais linda do mundo, aquela que eu enfeito com brocal dourado e que percebe minha esquizofrenia, maneirou na condução, só danço com ela. João alguém vai fugir pro circo, mandar cartas semestrais, dizer que ama, que sente e só. Não gosto de sushi mas às vezes é nosso jantar. Eu queria fazer amor no escuro até que amanhecesse e o dia revelasse nossos curvas e perfeições.
Eu queria ter um romance com Belchior, conhece-lo num bar de esquina, afastado do centro, um bar pintado de rosa, como era a casa da dona Nizú, uma ex. prostituta lá de Catu, alguém que eu amava. Ela tinha os cabelos pretos, longos e lisos. Fumava com charme, jogava buraco com os senhores da cidade. Meu pai sempre contou de sua beleza. Eu me lembro de um dia em que tomei banho na sua caixa d'agua, num quintal cheio de galos, o céu era azul e o sol brilhante. Catu tem cheiro de foto antiga. Passado, presente, futuro ao lado de alguém que tem o coração selvagem, mas que também é sentimental. Eu seria seu broto, e veríamos uma comédia de Woody Allen na sessão das cinco . Minha velhas roupas coloridas teriam o cheiro dele, e suas camisas sempre levariam as marcas de meu beijo. Quando brigássemos, eu quebraria os vasos e os porta-retratos. Ele me mandaria sair do seu caminho, eu sumiria.
Eu queria ter um romance com Belchior, conhece-lo num bar de esquina, afastado do centro, um bar pintado de rosa, como era a casa da dona Nizú, uma ex. prostituta lá de Catu, alguém que eu amava. Ela tinha os cabelos pretos, longos e lisos. Fumava com charme, jogava buraco com os senhores da cidade. Meu pai sempre contou de sua beleza. Eu me lembro de um dia em que tomei banho na sua caixa d'agua, num quintal cheio de galos, o céu era azul e o sol brilhante. Catu tem cheiro de foto antiga. Passado, presente, futuro ao lado de alguém que tem o coração selvagem, mas que também é sentimental. Eu seria seu broto, e veríamos uma comédia de Woody Allen na sessão das cinco . Minha velhas roupas coloridas teriam o cheiro dele, e suas camisas sempre levariam as marcas de meu beijo. Quando brigássemos, eu quebraria os vasos e os porta-retratos. Ele me mandaria sair do seu caminho, eu sumiria.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Ruas das Flores, 9 de janeiro, Olaria.
Espero cartas vindas de todos os cantos do mundo, com selos de todos os tipos e cores. Seladas com beijos de despedida e desejos de reencontros. Cartas que se desenrolem pelas longas avenidas ensinando à cidade a amar. Cartas sinceras, cheias de confissões e palavras proibidas. Esconderijo de história secretas e abrigo das tristezas. Papel marcado com lágrimas e que tragam em seu corpo o cheiro do remetente. Rabiscos de manhãs, cúmulos de domingos. Companheiras dos que estiveram sós, ombro para os que choraram. Notícias da minha vó, e dos primos que não conheci, mas sei que existem, e estão espalhados pela terra. Retratos de seres mutantes, de homens arrependidos e dos que carregam no peito a fúria do viver. Mágoas desfeitas pela escrita, perdões liberados no papel. Cartas atemporais, escritas em dias de vendaval, frio e melancolia. Textos utópicos, poesias concretas e marginais. Relatos de romances e guerras, feitos em garranchos ou códigos. Espero suas poses e poesias. Resenhas dos filmes com os quais você faria amor, roteiros das suas viagens e dos curtas filmados em sua mente. Bilhetes e lembretes, avisos de elevador. À direção. Rosa dos ventos. Que tragam boas notícias. Eu caminho, por enquanto pelo Brasil. Sem orientação. Estrela D'alva, o céu mais lindo. Retratos escolares, mapas múndi. Polaroides perdidas. Cartas de um amor que eu ainda espero, o qual tenho esperança de viver eterno. Daí, aqui e pra lá. Vestígios de frases. Impressões digitais. Páginas arrancadas de um livro. Um trecho de uma manifesto. Espero milhões nas ruas, mudando, girando a roda, roda gigante. E o pião? Nunca aprendi a girar, mas sei pedalar, desse jeito eu voo. Vou onde o X está, resolver essas questões, ganhar novas interrogações. Cartas sem pontuação, pois a euforia nos faz engolir as vírgulas. Eu li sentimento. Senti sua mente numa exclamação. Porra! E as receitas da tua família, me conta esse mistério, quanto de fermento tem que ter, pra ser alguém grande, pra fazer caber tanta gente, todo mundo no peito. Espero tua pintura, teus inventários de tipos humanos. Seu discos e seu refrão preferido. Aquele que cantamos a semana inteira, sem saber. Eu sou de Salvador, de salvador, de suas ideias. Quero cartas de dois gumes. Cheias de xodó, e a música do Xororó, sobre o amor do amante. Cartas com bulas, balas, cartas perdidas. Note a proximidade com os pássaros em versos. Note e anote. Grife, com piloto néon. Faça margens com giz de cera, no estilo papiro. Me diga que a vida é um moinho, declame em francês que o mundo é bão. Não rasgue os rascunhos. Não amasse seus erros, transforme-os em acertos, faço-os origamis. E me envie.
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