Eu queria casar com a Tulipa, acordar ouvindo-a cantar no chuveiro. Pegar no sono enquanto se discute sociologia. Viajar pra um lugar qualquer, num fusca laranja com o rádio queimado, um almofada de boca e uma boneca havaiana no painel. Morar em São Paulo, beber na Augusta, ir embora pro interior pra criar as crianças que seriam muitas, talvez cinco. Margô Margarida - o xodó do papai, víbora desinibida, a menina dos olhos meus, Antônio e Pedrinho (da maior importância), os moleques da casa, sorrisos e joelhos ralados de brincar de bola, bochechas rosadas e cabelos grande até quando os ombros pesarem. Tem Laura do amor, toda timidez, a menina mais linda do mundo, aquela que eu enfeito com brocal dourado e que percebe minha esquizofrenia, maneirou na condução, só danço com ela. João alguém vai fugir pro circo, mandar cartas semestrais, dizer que ama, que sente e só. Não gosto de sushi mas às vezes é nosso jantar. Eu queria fazer amor no escuro até que amanhecesse e o dia revelasse nossos curvas e perfeições.
Eu queria ter um romance com Belchior, conhece-lo num bar de esquina, afastado do centro, um bar pintado de rosa, como era a casa da dona Nizú, uma ex. prostituta lá de Catu, alguém que eu amava. Ela tinha os cabelos pretos, longos e lisos. Fumava com charme, jogava buraco com os senhores da cidade. Meu pai sempre contou de sua beleza. Eu me lembro de um dia em que tomei banho na sua caixa d'agua, num quintal cheio de galos, o céu era azul e o sol brilhante. Catu tem cheiro de foto antiga. Passado, presente, futuro ao lado de alguém que tem o coração selvagem, mas que também é sentimental. Eu seria seu broto, e veríamos uma comédia de Woody Allen na sessão das cinco . Minha velhas roupas coloridas teriam o cheiro dele, e suas camisas sempre levariam as marcas de meu beijo. Quando brigássemos, eu quebraria os vasos e os porta-retratos. Ele me mandaria sair do seu caminho, eu sumiria.
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