quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Licença pra Manoel

O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!
Manoel de Barros

quinta-feira, 17 de julho de 2014

chaga

Sou dominado, desde o acordar até o momento em que sou atingido, soterrado por toneladas de pensamentos, fantasmas e arrependimentos. O travesseiro invoca, recolhe e armazena todos os meus medos e frustrações, de maneira que toda noite, quando deito-me, como numa rotina infeliz, se é que existe alguma agradável, eles voltam. Se a vida segue um percurso, cheio de caminhos, alguns tortuosos, outros floridos, há os que as portas são estreitas e também aqueles que se findam em belos portais, largos, dourados. Estou certo que me perdi por todos esses e há uma especie de cegueira, um venda, almas vendidas, não sei ao certo distinguir o coerente do equívoco. E não há como dar quaisquer passo, não sem saber pra onde vou. Nisto também se perderam meus objetivos. Não sei onde quero chegar. Inerte observo o tempo passar, os fios brancos já povoam meu cabelo, a ausência de movimento já atrofia meus ossos, meu sobrepeso ganha com isso. Não há bussola, as rosas apartaram-se do meu redor, inclusive a dos ventos. E nos laços e chicotadas dadas pela realidade concluo minha dor. Igualmente culpados os chutes dados pelas curtas pernas das mentiras que contei. Das quais sinto-me prisioneiro até hoje. Arrancam-me os sorrisos, afundo-me em qualquer produto que me ofereça uma fuga de tal cenário. Há também além do tempo amigos, amores, amantes, que seguiram suas vidas, alguns foram perdidos, outros poupados do meu lamento. A resposta me parece evidente, na ponta da lança, na orla da faca, no caminhar paciente de uma chaga.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Ás de copas

as minhas estradas 
os meus silêncios gritantes
os meios, sem alfa, sem fim
os meios não justificados
metade é culpa minha
metade é agonia e julgamento;

os dias em que eu somos nós
os dias em que é todo mundo
os dias que são momentos, não horas
o singular plural, todo mundo tem seus nós
a eternidade não nos pertence, até que a morte nos una;

o desgaste e o descarte
de tudo que é cartesiano, do que se apresenta como insano
mas é fuga e desespero do metódico e racional
revolta difere de rebeldia

a pele, a lágrima, a flor, 
há tempo, há conflito, atrito,
abraço, e pra mim há deus,
à três (ou quatro), arco-íris, ato,
hiato, a cidade, há tempos, diáspora, adeus. 






 

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Sinceridade

Escrever sobre quem sou, ou alguém que seria melhor que eu? Contar minhas mentiras de bom grado, ou revelar uma criatura perfeita inspirada em meus disfarces felizes e nas facetas mais sorridentes desfiladas por mim? Quem ser além das páginas? Há uma certeza ou verdade absoluta quando tratamos de um ser ou não ser humano? Talvez a primeira verdade seja a de que não dá pra ficar relativizando tudo. Desfazendo-se de todo o fardo da sociedade nas costas do bom-senso. Certa vez eu li que os russos e um outro povo nórdico - que agora não sei ao certo qual é - fazem desnecessária a ida ao analista pois não fazem questão de esconder de ninguém que possuem um lado sombrio. É o Yin-yang se fazendo presente. Forças opostas, claras e escuras, boas e ruins, leves e pesadas, vivendo em perfeito equilíbrio. Nenhuma energia esconde a outra, mas dentro de cada uma existe um pequeno reflexo da outra, é como um bilhete.

Há um tempo participei de um discussão sobre ativismo, a discordância era sobre a funcionalidade do ativismo de sofá (termo empregado àqueles que compartilham e atuam nas mídias sociais, levando os  debates, concentrando a maior parte das ações no campo virtual) em relação aos que se fazem ativos fisicamente - presencialmente-, sejam em manifestações ou na participação de grupos que possuem incidência política em conselhos, partidos e etc. Houve o consenso que as duas formas de atuação precisam coexistir, de modo que a voz desses movimentos quando em conjunto ganhariam um alcance maior, incalculável. Um ano depois assisti e participei dos grandes ajuntamentos de junho de 2013, quando a mobilização nas redes sociais levou milhares de manifestantes para as ruas e avenidas do país. Houve equilíbrio, coexistência.

Escrever sobre os amores inventados, ou os que de tão bem contados tornaram-se reais. Trazer à tona o passado, constatando seus rastros em quem digo ser, ou na essência, no intangível que há em mim? Onde se atinge uma criança? Na alma ou no caráter? Quem paga a conta quando uma criança de doze anos tenta tirar sua própria vida? Seus pais ou o homem que lhe tocou, e que também fora coagido, por um terceiro que anteriormente foi vítima, e assim a roda gira. Roda gigante, uma hora você está por cima, noutra beija o chão. Essa é a vida.
Quantos reflexos cabem num espelho? Quantos eus já deitaram-se em minha cama. Quantos já fui? Quanta gente já morou no meu peito. E os sonhos que fizeram de mim morada e alimento? Ainda habitam meu ser. Será que ainda sou?

Escrever sobre a forma assustadora que os filmes atuam em mim, e influenciam meus atos na manhã seguinte ao dia em que os assisti. Eu já acordei rainha e ralé, ontem fui a grande depressão, hoje sou felicidade. Há dias em que sou a cheeleader decadente que joga café em qualquer um e humilha por humilhar. Quantas vezes já desfilei pelos corredores da vida, nutrindo-me do fracasso alheio para satisfazer minha baixa auto-estima. Contar sobre meus arrependimentos, sobre tudo que passa em minha cabeça nas longas viagens de ônibus que faço quando preciso sair do subúrbio. Sobre os pedidos de desculpas que eu já quis, mas não consegui dar. Sobre os perdões que eu disse aceitar, mas que ainda não perdoei. Sobre os dias em que planejo fazer tudo diferente, mas que não passam de monótonos.

O que falar desses dias iguais, que passaram despercebidos, me fizeram, mas não marcaram. Das tardes em que fui de má vontade à padaria, das orações feitas da boca pra fora, de tudo que eu não lembro, mas que eu sei que existiu. Dos homens que eu amei durante o minuto em que estávamos no mesmo vagão do metrô, ou na mesma fila do banco, das contas que não paguei e do meu nome sujo, mas a alma limpa, pois devo ter feito tudo que eu quis. O que é mentira, nunca fazemos tudo que queremos, há sempre mais, é sempre menos. Eu não o beijei naquela mesa de bar, não chupei seus dedos olhando em seus olhos, não contei ao mundo que foi a Maria quem roubou pão na casa do João, e que fiz isso por fome e por amor. Eu não gritei em todas as vezes que senti vontade e disse Eu te amo muitas vezes sem saber o que é o amor. E ainda não sei, mas sinto que amo. O que falar dos motivos que me levaram a mentir ou trair, dos anos que perdi tentando ser quem não sou, é quando Sócrates faz sentindo.

Taças de vinho, xícaras intermináveis de café, tragos de todo cigarro que vier, noites em claro, folhas amassadas, arquivos perdidos, cartas queimadas, bilhetes levados pelo tempo, recados na caixa postal e ninguém escuta. Notas em celulares vítimas da obsolência programada. Eu escrevi. A tentativa de entender-me, materializar-me em palavras. Me fazer real, certo e existente. Vomitar sentimentos, traduzir desejos. E então ser lido, o momento em que minha alma beija os lábios dos leitores, quando passam seus olhos pela minha pintura.

Eu os beijo quando conto do meu avô, o velho pescador que desafiou Iemanjá num dueto de Clara Nunes se revelando um cantor malandro. Dobrou a entidade no bolso, encantou a sereia e roubando seu sexo divino, fazendo malicias. Ela o amaldiçoou, morreste em pouco tempo, tempo suficiente para passar a prosa de pai pra filho. Eu os beijo quando conto sobre minha vó Gaída, mãe de minha mãe, a mulher que desafiou a maior serpente da Bahia, se tornando assim a mais sábia de todo o Nordeste. Eu os beijo quando conto de mim menino, correndo descalço pelas ladeiras do sertão, sonhando em abraçar o mundo, e com medo de estar sozinho ali e em todo lugar. Eu os beijo no exato momento em que fizeras a leitura sobre meus amigos, loucos, com amor, fúria e desejo em seus olhares. Paixão, eu morro de amores pela intensidade de cada um de vocês.

Escrever sobre meus medos e os muros erguidos por eles. As cortinas de ferro construídas em minh'alma. A separação entre qualquer tempo verbal. A omissão. Tudo que deixei pra amanhã, até entender que o amanhã é utopia. Eu nunca o tocaria.  O medo que impede meus amores e me aprisiona no platônico. O medo de perder, de ser, de mudar, de estar e permanecer. O medo que me acorda na madrugada e me faz chorar pelo escuro, pelo vazio, pela folha em branco. O medo do Papão que eu crio todos os dias. Da Cuca que atormenta minhas relações e do Monstro do Lago que me impede de mergulhar mais fundo em mim.

Escrever sobre o medo de envelhecer. Sobre o tempo e os temporais. Ter rugas e frustrações na bagagem. Por ter querido demais e ser querido de menos. A roupa não coube. Não tinha meu número, então perdi aquelas bermudas com estampa de âncora que eu tanto quis. E o menino que eu era afim só me via como amigo. Estar acima nem sempre é bom. A vida toda eu estive acima do peso e perdi tanto por isso, mesmo o peso. O peso de ser quem não quis. E ter medo de mudar, e não conseguir mudar por não ter forças. E esconder-se em camadas e camadas de roupa e sofrer ainda mais quando as estações mudam, e o verão chega. Olhar-se no espelho e não bastasse encarar a mente, a alma, a consciência, a idade e as expectativas de pai e mãe, também encarar um corpo. Peito em homem, não cabe em sutiã, nem em nada.
Sonhei que tinha matado minha mãe, esquartejado-a. Crime hediondo. E a bíblia alerta sobre o futuro, o presente. Filhos contra pais e idem. Eu tive medo. Mas era apenas um pesadelo, uma noite mau dormida. Não, eu estava matando minha mãe aos poucos. Desconstruindo todos os seus sonhos em relação a mim. Quebrando essas expectativas. Afastando-me da lei, pregando um outro Deus, fazendo dos meus desejos uma outra religião. Há uma morte, uma ruptura violenta da referência materna. Há uma necessidade de afirmação sobre tudo que foi lhe ensinado desde sempre. É hora de tirar suas próprias conclusões, gerar seus conceitos, voar, vou ar.

Meu pai quase morreu. Eu quase morri. E mesmo sabendo que corro risco de vida eu me aventuro no descaso. Ignoro instruções sobre o que fazer, evito drogas, promessas de cura. Por um lado me sinto um mal agradecido por todos os que me visitaram no hospital, oraram por mim, ou se preocuparam por um minuto que seja. Por outro sucumbo ao prazer de tragar minhas verdades enquanto ergo o cigarro, enchendo meu frágil pulmão do tóxico, das mágoas e olhares dirigidos à mim. A pleura inflama de raiva de não ser perfeito, de não estar são. Junto tudo que não presta em mim e torno motivo pra beber, bebo e afogo as mágoas.

Perco o ar, respirar é cada vez mais difícil, exige esforço sobre-humano. Dançar, correr, alongar-me é tarefa rara. Minhas costas doem e enquanto falo busco um pouco de oxigênio no falso vazio da atmosfera. Talvez seja drama, me passou pela cabeça que essa pode ser uma carta de despedida. Mas creio que ainda é cedo para isso. Ainda não fui ao Brooklyn, nem me vesti de astronauta, não casei de véu e grinalda, nem deixei ao mundo o legado presente na paternidade. Não fui uma estrela de Hollywood, nem fiz uma viagem espiritual à Índia, não fugi com o circo, nem vendi histórias nas portas do museu. Listar tudo que quero fazer é uma boa maneira de encorajar-me para ir a uma consulta.

Eu canso das pessoas. Canso dos poemas. Enjoo das músicas. Me revolto com as paisagens mas não crio intervenções em seus muros. Repito versos. Falo mal do mundo, dos meus amigos, dos meus pais. Vitimizo-me. Sinto saudade das pessoas, aplaudo o pôr-do-sol, desligo o celular, declaro amor aos mesmo amigos de quem falei mal.

Meu sonho é pegar uma mochila e perseguir a linha do horizonte. Sair pelo mundo sem endereço, sem nome, sem essa necessidade de rotular as coisas, de se entender, de compreender tudo e distribuindo definições por aí. Levantando poeira em estradas abandonadas, amando virgens em vilarejos e fugindo na madrugada, conhecendo tribos e trilhas. Será preciso ficar só pra se viver? Passar fome só pra saber a cor do saciar. Escrever impressões e memórias em mapas antigos. Estar só, estar junto. Reencontrar amigos, reviver sorrisos. Me abrigar na casa de um irmão, ser cuidado por ele. Ter vontade de voltar pra casa, ter um lar além do mundo. Encontrar lar num abraço. Ser lar. Em beijos, em toques, em transas, em broncas, em cafunés, em tardes, em traços, em pinceladas, em apertos de mãos, encontrar lar, em seios e colos.
Meu sonho é ter amigos, acima de qualquer nomenclatura. Amiga mãe, amigo pai, amigo irmão, amigo e todos vocês. Pois a amizade tem relação com a escolha. Deus se fez amigo do homem quando nos deu o livre-arbítrio. Amigo Jesus. Muitos amigos. Em todos os cantos. Em todas línguas.

Talvez a felicidade se enconda pelas brechas da rotina. Na graça do acaso. Na dúvida da existência. Na dualidade da palavra. Talvez ela seja só uma sombra, possibilitando diversas interpretações, visões e compreensões de quem ela é. Talvez a tristeza seja uma etapa da felicidade. Talvez a felicidade nem seja nosso maior alvo. Alguém implantou isso em nossa cabeça para que desperdicemos as nossas flechas mirando na felicidade, ao invés de nos focarmos na busca pelo equilíbrio. O que faz mais sentido pra mim.


Não tome sequer uma de minhas palavras como verdade.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

passarei

O menino é filho de pescador, faz do mar seu cobertor.                                                             
Eu, menino mulher, passo os dias sem bússola, acumulador.  
Desinibida, gosto de deitar nos ombros de amigos. 
Gosto de sentir seus corpos perfumarem minha alma. 
No escuro, escondido, eu sorri, eles também. 
O menino tem meu nome, mas difere de mim. 
Parece ser livre, se livre for o beija-flor, como um. 
Comem três, esplêndido curió. Pau duro, tem platéia. 
Gosto de saber que os quero por perto e os quero bem. 
Até meu bem, que tem meu amor e também minha implicância. 
Gosto quando goza em mim, gosto da silhueta quando cigarros penduram-se nos dedos. 
Extrovertido, também derramo minhas lágrimas e frustrações quando sou tomado por tédio. 
Gosto do menino, pois em nossas diferenças me reconheço. Não vou me perder por aí. 
E pedi perdão, perdi. Me perco pelas ruas de histórias, pelos sonhos que não me pertencem, por onde me defino, naquilo em que acredito. 
Se me achar, a graça se perde. Se achar-me devolva-me. 
Subimos dez andares de escadas, estamos deitamos no chão de madeira. 
Minhas pernas estão sob o corpo da mais bela, meus braços envolvem a mais graciosa, meus lábios sorriem para os peitos da que mais me faz sorrir, só tenho olhos para o mais bondoso, penso naquele com quem mais divido minhas cores. Gosto da textura de sua pele, do fogo em teu olhar. 
A cidade está apagada, destruída. Escrevi sinceridades na sujeira da janela. 
Colhi pérolas e pêssegos. O Nanquim é feito dos caroços do pêssego. 
Ilustrei tua libido em toda pele que encontrei, rabisquei a todos que me cercavam. 
Gosto da textura de sua pele, do fogo em teu olhar. 
Os noticiários vomitam assassinatos, e isso me faz mal, me faz temer. 
Mas quando estou com vocês me sinto imortal. Quando estou em nós sou eterno. 
Desinibida - entregue a ti, a vós, pequenos faróis, cercada de mares, de males, de traumas e complexos, mas brilhantes - faz aqui teu casarão, em árvore firme, arraigada e frutífera, João de Barro.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Tratado

Trovoadas e tropeços tramam contra mim, impedem o transcender da alma. Prendem-me em trapos e tratos com o passado. Traças no caminho que tracei como ideal. O destino trai. Tristeza é comum, disfarce é a saída. Troca-se a pele, mudam as coleções, as estações são outras. A essência permanece, antônimo morrer. O tempo aparenta trégua, mas não deixa de correr. Trago o desejo, trago cigarros e os sonhos são tragados. O medo está em mim, como um cavalo de troia. Truque de quem? Quem deseja o trono? Neste instante sinto-me trêmulo, busco algo para tranquilizar-me, eu sempre fujo. Tranco-me em casa, sumo do mundo, tranco-me em mim. E sinto medo, é desesperador. É nosso desejo, não ser trivial. É o grito da minha geração. Mas não sou intrépido. Temo a frustração. 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Dois cafés

Eu queria casar com a Tulipa, acordar ouvindo-a cantar no chuveiro. Pegar no sono enquanto se discute sociologia. Viajar pra um lugar qualquer, num fusca laranja com o rádio queimado, um almofada de boca e uma boneca havaiana no painel. Morar em São Paulo, beber na Augusta, ir embora pro interior pra criar as crianças que seriam muitas, talvez cinco. Margô Margarida - o xodó do papai, víbora desinibida, a menina dos olhos meus, Antônio e Pedrinho (da maior importância), os moleques da casa, sorrisos e joelhos ralados de brincar de bola, bochechas rosadas e cabelos grande até quando os ombros pesarem. Tem Laura do amor, toda timidez, a menina mais linda do mundo, aquela que eu enfeito com brocal dourado e que percebe minha esquizofrenia, maneirou na condução, só danço com ela. João alguém vai fugir pro circo, mandar cartas semestrais, dizer que ama, que sente e só. Não gosto de sushi mas às vezes é nosso jantar. Eu queria fazer amor no escuro até que amanhecesse e o dia revelasse nossos curvas e perfeições.

Eu queria ter um romance com Belchior, conhece-lo num bar de esquina, afastado do centro, um bar pintado de rosa, como era a casa da dona Nizú, uma ex. prostituta lá de Catu, alguém que eu amava. Ela tinha os cabelos pretos, longos e lisos. Fumava com charme, jogava buraco com os senhores da cidade. Meu pai sempre contou de sua beleza. Eu me lembro de um dia em que tomei banho na sua caixa d'agua, num quintal cheio de galos, o céu era azul e o sol brilhante. Catu tem cheiro de foto antiga. Passado, presente, futuro ao lado de alguém que tem o coração selvagem, mas que também é sentimental. Eu seria seu broto, e veríamos uma comédia de Woody Allen na sessão das cinco . Minha velhas roupas coloridas teriam o cheiro dele, e suas camisas sempre levariam as marcas de meu beijo. Quando brigássemos, eu quebraria os vasos e os porta-retratos. Ele me mandaria sair do seu caminho, eu sumiria.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Ruas das Flores, 9 de janeiro, Olaria.

Espero cartas vindas de todos os cantos do mundo, com selos de todos os tipos e cores. Seladas com beijos de despedida e desejos de reencontros. Cartas que se desenrolem pelas longas avenidas ensinando à cidade a amar. Cartas sinceras, cheias de confissões e palavras proibidas. Esconderijo de história secretas e abrigo das tristezas. Papel marcado com lágrimas e que tragam em seu corpo o cheiro do remetente. Rabiscos de manhãs, cúmulos de domingos. Companheiras dos que estiveram sós, ombro para os que choraram. Notícias da minha vó, e dos primos que não conheci, mas sei que existem, e estão espalhados pela terra. Retratos de seres mutantes, de homens arrependidos e dos que carregam no peito a fúria do viver. Mágoas desfeitas pela escrita, perdões liberados no papel. Cartas atemporais, escritas em dias de vendaval, frio e melancolia. Textos utópicos, poesias concretas e marginais. Relatos de romances e guerras, feitos em garranchos ou códigos. Espero suas poses e poesias. Resenhas dos filmes com os quais você faria amor, roteiros das suas viagens e dos curtas filmados em sua mente. Bilhetes e lembretes, avisos de elevador. À direção. Rosa dos ventos. Que tragam boas notícias. Eu caminho, por enquanto pelo Brasil. Sem orientação. Estrela D'alva, o céu mais lindo. Retratos escolares, mapas múndi. Polaroides perdidas. Cartas de um amor que eu ainda espero, o qual tenho esperança de viver eterno. Daí, aqui e pra lá. Vestígios de frases. Impressões digitais. Páginas arrancadas de um livro. Um trecho de uma manifesto. Espero milhões nas ruas, mudando, girando a roda, roda gigante. E o pião? Nunca aprendi a girar, mas sei pedalar, desse jeito eu voo. Vou onde o X está, resolver essas questões, ganhar novas interrogações. Cartas sem pontuação, pois a euforia nos faz engolir as vírgulas. Eu li sentimento. Senti sua mente numa exclamação. Porra! E as receitas da tua família, me conta esse mistério, quanto de fermento tem que ter, pra ser alguém grande, pra fazer caber tanta gente, todo mundo no peito. Espero tua pintura, teus inventários de tipos humanos. Seu discos e seu refrão preferido. Aquele que cantamos a semana inteira, sem saber. Eu sou de Salvador, de salvador, de suas ideias. Quero cartas de dois gumes. Cheias de xodó, e a música do Xororó, sobre o amor do amante. Cartas com bulas, balas, cartas perdidas. Note a proximidade com os pássaros em versos. Note e anote. Grife, com piloto néon. Faça margens com giz de cera, no estilo papiro. Me diga que a vida é um moinho, declame em francês que o mundo é bão. Não rasgue os rascunhos. Não amasse seus erros, transforme-os em acertos, faço-os origamis. E me envie.