Alice era o tipo de garota que brilhava, era como um anjo, seus cachos tomavam as ruas, o sol invejava suas cores quentes, seu ar juvenil.
Era como um tarde de primavera, vestida de flores, cheia de tons. Os dois irmãos brigavam pela melhor visão de Alice. O mar se agitava toda vez que a brisa espalhava seu perfume pelo Leblon.
A menina beirava os seus vinte anos, mais carioca que nunca. Era pura bossa. Jobim a idolatraria, junto com Vinicius a imortalizaria em uma canção.
Margô não gostava do bom-senso, nunca ligou pra etiqueta, sempre aplaudiu a rebeldia.
Parava em qualquer bar que lhe servisse um bom whisky. Seus melhores amigos eram os discos dos Sex Pistols. Ela tinha uma tara por bolinhas de sabão, e havia enfeitado sua bicicleta com rosas vermelhas. Margarida mudou seu nome, não tem telefone e ainda aperta a campainha dos vizinhos. Tornou-se Margô, que detestava o calor infernal do Rio, não costumava ir à praia e nem sabia sambar. Cortara seu cabelo com uma navalha no dia em que fora traída, o pintou de preto, fez sua primeira tatuagem – o mapa-múndi na coxa, e pôs um piercing no mamilo. Suas unhas esmaltadas eram vermelhas como seus lábios. Seus olhos castanhos, seu pijama era verde, com babados.
Butrus chorava pelos cantos, cantava no chuveiro, filmava a cidade, é provável que ele tenha fotografado teu sorriso distraído, pois essa é uma das muitas manias que ela possui. Butrus é apaixonado por gente. Eu me apaixonei por ele desde o primeiro instante. Os cachos castanhos que cobrem os ombros, e se deixam levar pelo vento. Sua cor de bronze, seu olhar sorridente. Ele é o tipo de mistura improvável que deu certo. Seu pai é um francês, professor de história e apaixonado pela cultura oriental, sua mãe é uma libanesa que deixou sua família em busca da liberdade e de um amor que não fosse escolha do pai. Butrus herdou dos pais a inteligência e a sede por liberdade, mas uma beleza única. Ele era o homem dos meus livros. Estava sempre vestido com camisetas listradas, bermudas coloridas e chinelos – ele detestava relógios e sapatos, pois acreditava que de alguma forma existiam para aprisionar. Em casa passava a maior parte do tempo sem roupa, sentado na janela, fumando um baseado ou lendo um livro. Amava os CDs do Bom Iver e era apaixonado pelo Justin Vernon, que o havia convertido ao time dos barbudos. Ele costumava tocar uma canção triste antes de dormir, era sempre madrugada. Ele passava as noites vendo filmes antigos e pintando os rostos de quem havia chamado sua atenção durante o dia. Butrus fazia amor na sala onde revelava suas fotos, beijava mulheres e homens. Tatuara O Beijo de Klimt em sua costela direita e no pulso esquerdo o nome de uma flor.
Butrus era apaixonado pela vida. E desfrutara da mesma da forma mais intensa possível. Eu não me esquecerei daquele sorriso malicioso, do olhar inocente. Das palavras doces que desenhavam Butrus. No seu pulso direito havia pulseiras do Senhor do Bonfim, três, presente dos seus melhores amigos.
Uma cortina de renda, deixo a luz entrar, padrões solares tatuados na pele.
Dias felizes estão aqui outra vez. Janelas embaçadas, nomes escritos no vidro.
A cidade dorme. Chove. Amanhece. A cama está desforrada.
A balança quebrou, estou acima do peso.
O ventilador faz um barulho insuportável, e não ameniza o calor.
Um ovo a menos para fritar, eu deveria estar feliz.
Os letreiros de neon já estão desligados. Por mim eles brilhariam a vida toda.
Um dia eles escreveram meu nome. Um dia a cidade clamará por mim.
“Eu não me esquecerei daquele sorriso malicioso, do olhar inocente.”
Eu canto coisas que nunca vivi, por isso escrevo em agendas.
Eu crio compromissos. Eu vivo coisas que já cantei. Minhas letras são o que me mantém vivo.
Eu não sei mais o que é real.
Talvez o meu passado seja, por isso, começarei por ele. Se me acharem, lembrem-me quem sou.
Eu me perdi, e me perco todos os dias, quando descubro que sou humano. Quando meus ossos doem, quando a carne intercede ao espírito, clama a calma das noites bem dormidas e de uma vida saudável. O espírito adoece por amor a carne? Não. Ele voa, livre, samba e se embebeda dos sorrisos boêmios, dos beijos amigáveis. A carne é humana, o espírito é ser.
Eu me perco quando teus olhos fogem dos meus, e eu não me sinto amado.
E é compreensível se perder quando não se encontra um abrigo durante a chuva, nem os teus ombros largos se colocam às minhas lágrimas. Eu me perco quando uma ditadura reprime cus e culturas, brilhos e estrelas.
"E eu a falar de estrelas, mar, amor e luar."
Eu me encontro.
Me encontro em tua voz e violão quando cê toca Esquadros e canta mais forte na parte do "divertindo gente e chorando ao telefone", eu me encontro porque sei que pensas em mim.
É fácil me achar na melancolia colorida de Frida Kahlo, e nos meus abraços partidos.
Eu escrevo notas com batom alaranjado nos azulejos do banheiro. Eu escrevo nomes, números de telefone, o dia em que o gás foi comprado e declarações falsas para amores forjados.
Eu sempre fui um menino solitário. Eu disse que falaria do meu passado, mas essa é uma viagem inesperada para mim.
Numa cidadela qualquer, um lugar sem importância para quem é importante. Onde as pessoas ainda acreditam em anjos e demônios, valorizam as tradições mais conservadoras, e fofocam por toda uma noite sentadas nas portas de casa. Onde todos sabem de todos, e todos têm seus grandes segredos. Neste lugar, onde ainda existem casas de taipa, e casas de farinhas. Casas de santo e casas de oração, casas de prostituição e casas em construção, onde meninos e meninas perdem sua inocência todos os dias.
Eles se vendem por um real, ou a moeda é como um memorial triste e humilhante do dia em que foram tocados.
Lá meninos não vestem rosa, não brincam em brinquedos cor-de-rosa.
Lá havia um menino solitário. Ele foi seduzido pelas luzes, pelos letreiros luminosos, que um dia ainda escreveriam seu nome nas fachadas dos teatros.
O menino gostava de rosa. E na terra onde todos eram santos isso parecia muito errado.
Eu ainda sou um menino solitário. Aquele que reuniu seu pertences numa trouxa e saiu pelas noites, sem rumo, sem arrependimentos. As luzes me atraíram. As luzes pertencem a cidade.
Eu seria o sol. Quente, símbolo de vida.
Eu roubaria o sol. Alguém disse que o sol irá morrer.
E imagino o quão grandioso será o último adeus do sol, por que suas idas diárias já são espetaculares.
Eu ainda me lembro da vista do pôr-do-sol que eu tinha da porta dos fundos de casa.
Era lindo, glorioso. Como eu queria ser.
O sol é a maior referência de luz que eu já tive.
A luz invade a sala, ilumina um pedaço do papel de parede floral já desbotado.
Eu ando pelo mundo. Sou atraído pela luz, desta vez ela se reflete em seus olhos.
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