sábado, 26 de outubro de 2013

Parte III

Quarta é dia de feira, é dia de tédio. Eu acordei sem graça, sem salto, sem saco.
A cama fria, arrumada. O sol invade o quarto.
Aqueço a voz, peço um pouco de pó de café à vizinha enquanto a água ferve.
Abro um livro de poemas, Quintana, leio uma estrofe e procuro guardar na memória.
Noto as lágrimas secas e corro para a pia. Encaro o espelho, beijo meus lábios.
Café. Elevador. Feira.

Amo a barraca de melancias, tem amostra grátis. Compro laranja, peço alho pro menino no carro de mão. Odeio as barracas de peixe. Não sei tratar peixe, nem carne alguma. Eu deveria ter virado vegetariano. A feira é linda. É feita de cor, textura e sabor. Tem gente da roça e do interior.
É um dos poucos lugares na cidade onde consigo fugir do computador. No meio da feira alguém me olhou Enquanto caminho percebo um olhar. 
Era alguém de olhar sincero, foi a primeira coisa em que pensei. Seus cabelos eram longos, cobriam parte do rosto. Mas eu o via de forma clara. Nossos olhares eram reais, eu pensei. Ele estava com um pulôver rosa de âncoras azuis, bermuda e chinelos.

Nos encontramos na barraca de batatas, eu sorri pela primeira vez naquele dia.
O nome dele é Butrus. Eu não me contive, fiz a piada “Até tu, Brutus!”. E ele pareceu achar graça.
Eu disse que sabia fazer um purê de batatas dos deuses – como se purê fosse a coisa mais difícil do mundo. Ele se ofereceu para provar.
Foi a primeira vez que eu levei um desconhecido para minha casa durante o dia, também foi a primeira vez que eu fazia isso consciente.  O estranho era ter a impressão de que eu o conhecia há anos.

Enquanto eu cozinhava as batatas e pensava em algo mais impressionável para o almoço,
Butrus pegou o violão e tocou sua primeira música triste.
“I was unafraid, I was a boy, I was a tender age
Melic in the naked, knew a lake and drew the lofts for Page...”
Eu chorei e pus a culpa nas cebolas já cortadas.

Passamos a tarde nos achando, dividindo memórias, nos entregando.   
Ele me entregou uma foto de Polaroid. Eu estava com um panamá e uma camisa floral. Eu podia me lembrar do dia em que fui capturado, mas não achava possível ter sido fotografado. Butrus me contou do seu hábito de registrar os rostos que o atraiam. Eu contei da minha mania de desenhar rostos na parede. Ele pediu para me ver desenhar. Eu o escolhi como tela.
Pintei seus lábios de carmesim, os meus serviram de pincel. Naquela tarde fomos arte e artista.

A noite não tem lua. Breu!
O calmo bairro de Laranjeiras escuta atento os lamentos e murmúrios de Margô.
- Ridículo! Babaca! Filho da puta!
Mais cedo ela havia flagrado seu namorado – um rapaz latino-americano de vinte e poucos anos, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior. Uma cópia meio ridícula do Belchior. – transando com a menina com quem dividia o apartamento. 
Margô não disse um pio sequer. Pegou seus discos, jogou algumas roupas na mochila e disse que voltaria outro dia pra pegar o resto das coisas. Um maço de cigarros depois, ela só não conseguia entender o porquê de sua raiva, se no fundo ela sabia que não amava o garoto.
Ele era pouco mais que um consolo. Mas ainda assim ela sentia-se terrivelmente traída.
Margô já sabia para onde ir. Mas antes precisava parar em algum boteco, beber umas doses de Johnny Walker e não deixar o acontecimento passar em vão.
Ela deixou o bar junto com a noite. Passou na padaria e pra não chegar ao seu destino com as mãos vazias tratou de comprar croissants e alguns biscoitos.

A campainha tocou cedo e por sorte eu já estava de pé.
Quando abri a porta me assustei, Margô não aparecia na minha casa há meses, e a única certeza que eu tinha era da não sobriedade dela.  Sentei-a no sofá e logo tratei de preparar o café – eu tinha feito mercado no dia anterior, então tudo bem receber visitas. Da sala ela gargalhava suas desgraças amorosas, e reclamava do mal estar que dá quando se mistura whisky com cerveja. Ela pediu pra ficar uns dias comigo, eu adorei a ideia! Pensei em arrumar minha cama, mas ela já havia pegado no sono ali mesmo, no sofá de bolinhas azuis. Deitou em cima da sacola com os croissants, eu não resisti e peguei um dos menos amassados.

Margô chegou num dos dias mais quentes do ano. Ela passara o dia inteiro dormindo, e mesmo com a maquiagem pesada, com os rastros pretos das lágrimas, ela parecia a criatura mais angelical, mais sublime do mundo. Naquele instante eu a amei como uma irmã.
Tropecei em sua bicicleta quando sai de casa e na volta trouxe rosas novas para presenteá-la. 

Cadeira de balanço, cinzas no chão da varanda, já era noite e a lua surgia tímida.
Ela veio até mim, com os cabelos mais curtos, mais negros – o banho havia lhe feito bem, seu rosto estava vívido – quase nua.  Selou seus lábios nos meus, foi como dizer obrigado. 

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