sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Parte II

Alice bailava sobre o palco. Meus olhos a contemplavam enquanto minh'alma enxergava-a celeste, cantando para os deuses. Vestida de branco, sangue nos lábios. Eu a devoraria.
Aquela pele branca que escondia aquele universo de possibilidades, aquelas mil faces. Um personagem por dia, uma nova Alice a cada novo dia. Eu as devoraria.
Eu comparo pessoas com planetas e constelações. Conheço alguns Vênus, certos Martes.
Alice é um sistema solar inteiro.
Por mais excitante que isso possa parecer conviver com uma pessoa assim é confuso, estressante e desafiador.
É como um distúrbio tripolar. Ela são, elas é tanta coisa.
Onde está o limite entre o sonho, a realidade e a atuação?
Ela sonhava em ter uma história como a de Lily Braun.
Ela interpretaria Yerma numa montagem de Federico García Lorca feita por uma companhia teatral lá de Joinville.
Mas para mim ela era uma menina ingênua, com o olhar perdido, um par de peitos geometricamente perfeito e o caminhar mais encantador do mundo.
Eu a amei todos os dias. Todos os dias em que a reconheci.
Todos os momentos em que a encontrei em seu olhar.
Estávamos sem um tostão no bolso, o aluguel estava quase vencendo e não conseguíamos um emprego que pagasse dignamente e contemplasse nosso estilo de vida em lugar nenhum.
Passamos dias e noites trancados em casa, nos alimentando de luz, música e sexo.
Éramos como canibais, um comia o outro. Eu adorava me deliciar com pedaços de sua coxa, macia, cheia de carne. Ela mordia minha bunda, bebia minhas carícias, se satisfazia com meus passos de dança, com minhas palavras lançadas em tua boca.
Por sorte nós dois conseguímos um bico num festival de cinema francês que iria rolar na cidade.
Foram duas semanas assistindo quase todos os filmes que foram produzidos pelos franceses naquele ano.
Foram tantos filmes, tantas histórias diferentes. Closes, cortes, panorâmicas. Dramas, comédias, e Alice absorvendo tudo o que via. Um dia nós vimos A vida de Adele e no outro Alice pintara seus belos cachos dourados de azul, azul anil. Ele ainda parecia celeste, mas estava mais feroz, mais animal.
E mesmo com dinheiro no bolso ela queria se alimentar de mim.
E eu a alimentei enquanto era comédia romântica, com seus closes, sendo drama.
Os dias se seguiram, eu escrevia compulsivamente, as agendas estavam lotadas de notas, poemas e pequenos versos. Eu estava certo de que conseguiria ser aprovado num primeiro edital de incentivo à cultura. Alice estava fazendo testes para a montagem de Yerna e quando o resultado veio foi mágico.
Ela estava tão empolgado, eu estava tão orgulhoso.
Foi a primeira vez em que o olhar dela não parecia perdido.

Alice era minha amada e bailava sobre o palco. Vestida de sangue, lábios pálidos.
Ela estava em minhas agendas, pois era minha inspiração. Eu a desejara.

Alice estava em meus poemas.
"Como num romance..."
Nós havíamos assistido tantos filmes, eu a devorara.
"Como no cinema..."
Eu não havia mandado flores, mas plantamos feijões em potes de margarina.
Alice era Lily Braun.

Os dias se passavam e ela estava imersa no universo criado por García Lorca.
Ela me tomava como Juan e ensaiávamos por noites inteiras.
Alice queria ser Yerma, e a ideia principal do espetáculo é como uma mulher se casa com o homem errado e por ele tem que sofrer durante toda a sua vida.
Primeiro vieram as romarias, os ritos e canções. Havia dinheiro, mas estávamos famintos. Em minhas agendas as páginas de outubro foram ficando vazias. Alice se tornara humana e seu olhar parecia mais certo e ciente do que nunca.
A data de estréia se aproximava, e as discussões tornavam-se frequentes. Rotineiras.
Minha menina agora era uma mulher fatal. Emocionalmente desequilibrada. Vestia-se de vermelho, usava decotes mais profundos, expondo seu peitos belíssimos. Era o touro e o toureiro. Um vulcão em erupção.
Acordamos numa manhã de quinta, era o dia da estréia. Quando os meus olhos se abriram logo depararam-se com os de Alice, e os dela pareciam totalmente determinados e convencidos do que fariam.
Ao me encarar no espelho notei um olhar distante. Eu avistei o batom alaranjado próximo as escovas de dente. Escrevi um verso no azulejo.
- Merda.
Alice bailava no palco.
Entrei no camarim, deixei o buquet de rosas vermelhas em cima da bancada.
Sai pela noite, sem luz, sem rumo. Entrei em um bar qualquer e pedi uma dose de whisky. Havia uma mulher curiosa ao meu lado, uma espécie de Amy Winehouse, ela me acompanhou no pedido.

Quanto a Alice, ela não era mais Lily Braun.

Nunca mais romance, nunca mais cinema, escrito em batom.



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