domingo, 12 de maio de 2013

Mem de Sá

Era manhã, domingo e maio.
Domingo segundo, dia de calor e céu limpo.
O prédio amarelo, enfeitado de limo e marcas de infiltrações estava cinza.
A Mem de Sá estava fria. As árvores nuas.
Envolto em lençóis e cobertores estava João. 
Afogado em lembranças e saudade.
Há quatro meses ele havia perdido sua mãe, em um acidente de carro.
Ela havia bebida uma ou duas doses de conhaque, para esquecer o tempo e suas feridas quase fechadas.
Pegou o carro, um chevette cinza 1988, e saiu dirigindo sob a lua cheia. Planejava ir ao infinito. 
Não passou da Av. Niemeyer. Encontrou-se com o mar revolto, despencando tragicamente pelo paredão rochoso. 
A dor tinha feito morada em João. Um menino simples, de cabelos cacheados, olhos de jabuticaba e coração maior que o mundo. João parou de dirigir, apegou-se ao seguro desemprego, e já devia dois meses de aluguel. Tinha terminado com o namorado, mesmo amando-o com toda sua alma. 
Sua barba havia crescido, ainda que falhada. Suas roupas estavam gastas e sua única companhia eram os livros. 
Aquela manhã parecia mais difícil do que todas as outras, as memórias de toda uma vida resolveram confrontar a mente traumatizada de João. Todos as manias, graças e gostos de sua mãe vinham sobre ele. E a cama lhe parecia o melhor - ou o menos pior- refúgio. Era dias das mães. Os restaurantes estavam cheios, lotados para ser honesto, ele teria que fritar ovos. Mas não tinha fome, então tanto fazia. 
A cama então estava molhada com a chuva de lembranças maternais. João levantou-se apegado ao maior legado deixado por sua mãe. E que por algum motivo ele havia ignorado durante esses meses de luto. Sua mãe era feita de esperança. Mesmo em suas angústias e frustrações ela permanecia inabalável, essa era a mensagem que sua mãe lhe passava, de que tudo era passageiro, exceto o amor. 

Naquele instante ele sentiu a presença intensa e aconchegante se sua mãe. Justo por ter entendido que o amor supera o tempo, vence a morte, cicatriza as feridas. João não estava só. E não havia motivos para lamentos. 

João então lavou seu rosto, enxugou as lágrimas, correrá até a primeira floricultura que por sorte ainda estava aberta. E escolhera as mais belas rosas amarelas, as preferidas de sua mãe,  e voltara pra casa, vestido em pijamas azuis, distribuindo sorrisos aos passantes. 
O prédio amarelo enfeitado de limo e marcas de infiltrações estava alegre e iluminava a Mem de Sá. 
As janelas da quitinete de dois quartos, foram abertas. As roupas de cama trocadas, flores enfeitavam todos os cômodos. João passeara por seu cantos, cobrindo o ambiente com poemas e cânticos. Em suas paredes florais ele pendurava risos e carinhos. A luz do sol passara a ser bem vinda. 
No anoitecer João foi ao cinema ver os filmes bobos paridos por Hollywood. 
Ele havia ligado para Dinho, se encontrariam como bons amigos, sairiam dali para um bom restaurante - de culinária italiana. João estava disposto a reatar todos os laços de amor que havia rompido por conta do luto. Se os encontrarem pelas ruas não perguntem detalhes sobre o filme, eles estavam fazendo poesia. 

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