quarta-feira, 15 de maio de 2013

Relicário


Numa certa noite resolvi ficar trancado em meu quarto,
Revestido de infância, azul cor de céu, céu de primavera.
Naquela noite no meu quarto era dia.
Abri minhas gavetas, na intenção de reencontrar meus sonhos,
Na primeira gaveta, no canto direito, bem no profundo, onde só a poeira alcança encontrei uma concha.
Esta concha havia guardado o sussurro do oceano, o som do mar, de qualquer mar.
Então me lembrei das histórias que vivi ao lado do menino solitário, no mar de Ipanema. Nosso mar, Perry.
Naquela noite no meu quarto era dia.
Da segunda gaveta retirei cores, das vibrantes às mais viçosas.
E eis que daquele embaraço de cores pude reconhecer o verde, aquele verde que enfeitava o mundo do Guito, um verde refrescante, com alma viva, envolvedor.
Quando abri a terceira gaveta me surpreendi ao ver o pôr-do-sol, e sem titubear lembrei das tardes no Arpoador, do toque sutil do vento sobre o rosto, das lágrimas levadas pela brisa, dos sorrisos trazidos pela lua. 
Dobrei aquele pôr-do-sol, amassei-o gentilmente, de forma que toda aquela grandeza pudesse caber novamente na gaveta.
Antes que eu fechasse a gaveta, notei que havia um desenho amassado pelo tempo, beijando a madeira.
No papel estava escrito a palavra AMOR, e o desenho era o de uma casinha, com janela, uma porta enorme, chaminé e um belo jardim. O desenho era cinza, e a palavra quase ilegível. Então o peguei e o mergulhei no bololô de cores, engomei-o e o pus em uma moldura que enfeitava a penteadeira.
A gaveta seguinte estava uma bagunça! Estavam espalhados por ela beijos e abraços, cartas e marcas de batom. Meu primeiro carrinho, e o Mickey que herdei da minha tia. Uma pulseira que ganhei da maternidade e um caderno com dedicatórias de amigos da sexta série. Um ticket de cinema, e um cd com canções de apartamento. Ainda naquela gaveta encontrei um frasco de perfume com aroma de saudade, e os olhares que escrevi com a luz de amigos. 
Na última gaveta encontrei todas as horas repetidas, nas quais eu pensava nos amores, nos amigos, nos anos, no tempo. Encontrei cílios caídos, gastos com desejos.
Um caderno em branco e uma caneta. Os quais nunca haviam se tocado, mas pareciam se desejar por toda eternidade.
Num relance me questionei o porquê de todas aquelas preciosidades estarem guardadas, ou melhor, escondidas. Então me lembrei de uma coisa que minha mãe costumava dizer: "Dê honra, a quem tem honra."
Naquele momento percebi que minhas estantes estavam ocupadas com coisas sem importância, com artigos que apesar de seu alto valor, custavam barato. Sem pensar duas vezes derrubei todos os troféus que ocupavam lugar de destaque, substitui pelas batidas do coração do meu irmão. Desdobrei aquele pôr-do-sol e forrei o teto do meu quarto com ele, de forma que a lua e o sol pareciam se beijar, e as cores se trançavam enquanto Laiá- laiá tocava na radiola. Os mares gravados na concha se agitaram, tomaram-me no colo e me puseram a ninar. Os sorrisos, os abraços, os beijos daqueles aos quais eu amei passaram a ornamentar não só minha estante, como também minha vida. Meus sonhos saltaram das gavetas, se perderam pelo caminho, retornaram como realizações. A palavra amor não era nem retas, nem traços. Era verdade, concretude, era a estante enfeitada, era o dia varando a noite no meu quarto azul, era o menino do México, eram meus amigos dançando ciranda. Era sexta-feira.

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