Eu ainda insisto em catalogar nos meus cadernos amigos, ou em qualquer pedaço de papel, detalhes da vida que me fazem derreter em lágrimas, gargalhar mentalmente, suspirar - na certeza de que se está vivo - ou sorrir um sorriso de satisfação momentânea, plenitude.
São coisas como a voz da minha vó ao telefone, quando por acaso, ou por conta de sua intuição, ou ainda pela forte ligação que nos pertence, ela liga quando eu mais preciso. Seu timbre me parece celestial.
Tão divino quanto o tempero de minha mãe, que é semelhante a um beliscão necessário para saber que não está sonhando. É o sabor de casa, o gosto do pertencimento mútuo. De ser e ter.
Coisas como a aprovação do meu pai, o sincero "eu te amo" do meu irmão e a gargalhada escandalosa da minha irmã.
( Eu realmente precisava começar citando minha família. As fontes do amor.)
Eu lembro de me sentir pleno em algumas orações. Meus momentos de devoção. Que com o tempo se tornaram raros, quase em extinção. Mas que por algum motivo não consigo ignorar ou esquecer.
Eu ainda desejo ser um grande amigo de Jesus. Não houve poema maior que Ele.
Coisas simples como ver as estrelas, mesmo sem saber a qual constelação elas pertencem.
( Especialmente hoje o céu do Rio de Janeiro está lindo. Sei disso por que acabei de me sentar ao chão e contemplar este mesmo céu, pontilhado de estrelas - umas mais brilhantes que as outras, mas todas gloriosas- enquanto tomava suco de laranja na garrafa e calçava meus mocassins preferidos, já gastos.)
Coisas como o Arpoador, especial em todas as estações do ano, indiferente ao clima.
Muitas coisas provocam em mim esse desfastio, entre elas a pele sensível ao toque, o lábio sensível ao toque, um instrumento sensível ao toque, a tela sensível ao toque.
O bigode, rastro de leite; As gotas de chuva retidas pelas lentes dos óculos; O cheiro do café, que toma a casa inteira. O Amigo, ao qual classifico como amante. O sol das sete, da manhã e do horário de verão. A obra de Egon Schiele, as crônicas de Neil Gaiman e a música de Corinne Bailey. Os gominhos perdidos no suco de laranja. As rosas deixadas nas páginas dos livros, memórias secas. Os versos de Lorca, seu amor por Dalí. Nessas coisas pequenas quero deleitar-me.
No fim a felicidade é mesmo a herança, a união desses quês.
A reunião das simplicidades que acumulamos no entorno da vida. E incluo inclusive as tristezas e os desapontamentos, pois não há gozo maior que o de ter dado a volta por cima.
Nenhum comentário:
Postar um comentário