terça-feira, 28 de maio de 2013

nu

Digo, amo a nudez.
Por mim andaríamos nus, como viemos a esse mundo.
Dias quentes, dias frios. E ainda estaríamos nus.
Tatuados, cercados de flores. Nus.
Banhando-se nos mares, enfeites de neve.
Libertos dos segredos. Nus.
Sem essas ideias e padrões. Eu queimaria as capas de revistas.
Banhando-se sob a lua, livres dos preconceitos.
Tocados pela luz. Nus.
Eu defendo uma sociedade nua. Com a alma descobertas.
Com as imperfeições à vista.
Paus, peitos, dobras e lábios. Todos livres.
Eu adoro a moda, adoro minhas bermudas cheias de cor.
Mas eu prefiro a nudez.

Sobre a igreja

Nesses últimos dias tenho refletido muito sobre o papel da igreja cristã na sociedade.
E o que me atenta são fatos ocorridos dentro do universo cristão, ou dessa rotina. E dos desdobramentos disso na relação com outros grupos.
Dentro de algumas igrejas temos visto ditaduras cada vez mais frequentes. Ditaduras de líderes e pastores, que se apegam em textos isolados da bíblia, defendendo uma soberania das ideias e atitudes pastorais. Aliás é cada vez mais comum vermos pessoas apegadas a fragmentos bíblicos, que quase sempre calham em seus próprios interesses.
Nasci num lar cristão, cercado de ensinamentos bíblicos e da valorização do cumprimento das leis de Deus. Tendo a palavra de Deus como guia de vida. Vivendo a suficiência das escrituras.
Ao crescer me deparei com um cenário averso aos principais mandamentos bíblicos. Um ambiente dotado de hipocrisia, ira e julgamentos. Isso despertou em mim repulsa de tais condutas e afastamento da religião, e também o rompimento de um relacionamento com Deus.
Um fato que também contribuiu para isso é e foi minha orientação sexual. Sou homossexual, portanto sou alvo das principais críticas e ofensas evangélicas.
Nesse tempo distante tive contato com pessoas de outras religiões, estudei algumas outras e o que mais me chamou a atenção foram as semelhanças das colunas que sustentavam essas religiões.
Em todas elas o amor cumpre papel de destaque.
Pois então, nossa sociedade capitalista que só, incentivadora da competição, semeadora da individualidade e que presencia a extinção de costumes para uma convivência melhor entre os povos, como por exemplo o respeito, deveria ser o alvo da influência desses praticantes religiosos.
Porém o que me parece mais ocorrente é o inverso. Igrejas cada vez mais empresariais, templos inflados de orgulho, soberba e intolerância. Lobos com suas fantasias de cordeiros imaculados.
Considero a igreja (instituição) um lugar de cura, comunhão e adoração a Deus. Além de ser uma escola de profetas. Sendo um lugar de cura, aqueles que estão enfermos merecem e devem sim ser acolhidos. Logo, todos os membros encontram-se em situação de igualdade, já que todos somos pecadores e sujeitos a erros. Estamos todos em tratamento.
Com isso não vejo razão para homossexuais serem agredidos, mulheres serem envergonhadas, e cidadãos seguidores de outras crenças serem rejeitados. Todos, sem exceção merecemos ser acolhidos e beneficiados pela paz e amor presentes nessa casa.
Devemos então nos pôr como servos e imitadores de Cristo. Levando-os ao caminho da vida, ao bálsamo que cura todas as feridas, a fonte de alegria, príncipe da paz.
Para mim esse é o papel da igreja na sociedade. Ser sal e luz.
Quanto ao meu relacionamento com Deus? Eu não vejo razão alguma para me afastar de uma pessoas tão linda e perfeita como Ele. Ele em qualquer forma e compreensão. Quero mais ser tomado por seu espírito e ser influenciado por seus mandamentos de amor. De modo que possa contribuir com uma sociedade justa, repleta de pessoas que se importem umas com as outras, que valorizem as coisas e momentos simples. Que amem.
Quando a igreja começar a viver o amor de Deus. Então testemunharemos o avivamento da igreja. E amar não quer dizer concordar com o pecado, nem aceitá-lo. pois esse não é o nosso papel. Amar também é apontar o caminho certo, apontado nas escrituras sagradas. Mas aceitando a liberdade de escolha de cada um.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Éden


Nos dias longos de verão, me pus a construir um amor.
Num dia de verão ergui um castelo com a areia.
Não demorou muito e o domínio do mar se fez presente,
Pondo minha arquitetura ao estado de ruínas.
Castelo de areia é por natureza instante, efêmero.
Tu constróis, habita-o e ergue muralhas ao seu redor.
Nos dias longos de verão, quando a chuva é severa e devasta,
 Pus-me a regar o meu amor.
Nestes longos dias edifiquei uma cidadela,
Porém as chuvas eram repentinas, devastadoras.
As enchentes destroem cidades, inundam sonhos.
Os montes mais altos desabam.
Durante o meu verão, o hemisfério Norte vivenciava um rigoroso inverno.
Construíram, portanto um abrigo,
Um iglu, talvez.
E eu então, aqueci meu amor.
O rigor do inverno é esbranquiçado, a neve encobriu vidas.
Avalanches ocultaram estados.
Noites longas.
Mar traiçoeiro.
Chuva assoladora.
Nevasca violenta.
Abriguei meu amor junto das flores, primavera.
Equilibrou-se a vida, e os dias e as noites medem a mesma altura.
Troquei minhas verdades por uma maçã.
Jardim do Éden.

Ao querido fevereiro


Ao querido festeiro, me proso em saudações.
Como passas rápido, feito coisa boa. Como voas livre!
Pois parte antes de terminar.
E deixa adiante a sombra de suas pressas.

És um adolescente, repetido.
Não se cansa?
Falece ainda jovem e juras com os pés juntos que se entrega puro.
Pois não é tua carne que se rasga de desejo e decompõe em samba?

Compõe minha dor em teus acordes frágeis,
Uma vez que prometeu serem imperecíveis teus dias de felicidade marcada.
Mês segundo, intercedo pelo sentido da vida, mesmo que semelhante a ti, ela seja breve.
E é verdade, os poetas consentem. Amor é sentido.

 Por Ventura dos Dias

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Relicário


Numa certa noite resolvi ficar trancado em meu quarto,
Revestido de infância, azul cor de céu, céu de primavera.
Naquela noite no meu quarto era dia.
Abri minhas gavetas, na intenção de reencontrar meus sonhos,
Na primeira gaveta, no canto direito, bem no profundo, onde só a poeira alcança encontrei uma concha.
Esta concha havia guardado o sussurro do oceano, o som do mar, de qualquer mar.
Então me lembrei das histórias que vivi ao lado do menino solitário, no mar de Ipanema. Nosso mar, Perry.
Naquela noite no meu quarto era dia.
Da segunda gaveta retirei cores, das vibrantes às mais viçosas.
E eis que daquele embaraço de cores pude reconhecer o verde, aquele verde que enfeitava o mundo do Guito, um verde refrescante, com alma viva, envolvedor.
Quando abri a terceira gaveta me surpreendi ao ver o pôr-do-sol, e sem titubear lembrei das tardes no Arpoador, do toque sutil do vento sobre o rosto, das lágrimas levadas pela brisa, dos sorrisos trazidos pela lua. 
Dobrei aquele pôr-do-sol, amassei-o gentilmente, de forma que toda aquela grandeza pudesse caber novamente na gaveta.
Antes que eu fechasse a gaveta, notei que havia um desenho amassado pelo tempo, beijando a madeira.
No papel estava escrito a palavra AMOR, e o desenho era o de uma casinha, com janela, uma porta enorme, chaminé e um belo jardim. O desenho era cinza, e a palavra quase ilegível. Então o peguei e o mergulhei no bololô de cores, engomei-o e o pus em uma moldura que enfeitava a penteadeira.
A gaveta seguinte estava uma bagunça! Estavam espalhados por ela beijos e abraços, cartas e marcas de batom. Meu primeiro carrinho, e o Mickey que herdei da minha tia. Uma pulseira que ganhei da maternidade e um caderno com dedicatórias de amigos da sexta série. Um ticket de cinema, e um cd com canções de apartamento. Ainda naquela gaveta encontrei um frasco de perfume com aroma de saudade, e os olhares que escrevi com a luz de amigos. 
Na última gaveta encontrei todas as horas repetidas, nas quais eu pensava nos amores, nos amigos, nos anos, no tempo. Encontrei cílios caídos, gastos com desejos.
Um caderno em branco e uma caneta. Os quais nunca haviam se tocado, mas pareciam se desejar por toda eternidade.
Num relance me questionei o porquê de todas aquelas preciosidades estarem guardadas, ou melhor, escondidas. Então me lembrei de uma coisa que minha mãe costumava dizer: "Dê honra, a quem tem honra."
Naquele momento percebi que minhas estantes estavam ocupadas com coisas sem importância, com artigos que apesar de seu alto valor, custavam barato. Sem pensar duas vezes derrubei todos os troféus que ocupavam lugar de destaque, substitui pelas batidas do coração do meu irmão. Desdobrei aquele pôr-do-sol e forrei o teto do meu quarto com ele, de forma que a lua e o sol pareciam se beijar, e as cores se trançavam enquanto Laiá- laiá tocava na radiola. Os mares gravados na concha se agitaram, tomaram-me no colo e me puseram a ninar. Os sorrisos, os abraços, os beijos daqueles aos quais eu amei passaram a ornamentar não só minha estante, como também minha vida. Meus sonhos saltaram das gavetas, se perderam pelo caminho, retornaram como realizações. A palavra amor não era nem retas, nem traços. Era verdade, concretude, era a estante enfeitada, era o dia varando a noite no meu quarto azul, era o menino do México, eram meus amigos dançando ciranda. Era sexta-feira.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Étreinte

ÉTREINTE PABLO PICASSO


Teu calor transgredia minha alma, gélida, fragilizada com os terrores daqui. 
Seus braços curtos esforçavam-se para envolver-me, e quando o faziam me traziam a vida.
Os lábios viajavam por meus seios, aportavam nos meus. Os lençóis nos vestiam como deuses.
Nossos corpos se despiam, profanos. Meu amor transbordava pela cama, tornava-se áurea. 
Teu signo feria-me o ego. Punha-me em lugar de presa. 
É verdade que o amor é uma guerra, ambos se ferem, ambos se doam. 
Mas estive certo que aquela cama seria cenário de um massacre. 
Onde todos os eus inventados por mim, seriam deixados. Envenenados. 
Pela verdade que saltava de teus olhos. Pelo fervor de tuas mãos.
Dobrei meus joelhos, como quem rendido. 
Entreguei-me a tua dança, ciente da morte.
Crendo que a contradição do amor me elevaria ao êxtase da vida.
Ou de uma noite qualquer.  



domingo, 12 de maio de 2013

Escárnio


Enquanto pensas que me usas
Eu te uso como nota e poesia
Enquanto pensas que me tens
Te misturo ao vinho e vem a inspiração
Enquanto meu cigarro queima
Tua poeira é o que polui o meu pulmão

Tua escuridão abraça meus cabelos
Arrancados num momento de angustia
Teu embaraço é o que precede meu desespero
Teu adeus é o que provoca minha expressão
Poesia

Os teus sonhos, pesadelos, são reais
A distância entre nós só faz crescer
Reza o tempo, e o teu beijo se desfaz
Tua luz esconde o negro da tua paz
Minha letra não cabe em sua canção
É poesia

Narre agora esse adeus,
quero partir, 
Suba a serra, minta, engane
Se disfarce
Me moteje, pegue a pista, pegue a Marta
Parta, coma todas as mulheres, se distraia
Vomite o "Eu te amo" que te disse
Fraudeie-me, e me faça acreditar nesse final.
Me belisque e vamos logo ver o mar.

Mãe

Te ver chorando presa no quarto, me mata. Queria muito ver teu sorriso durante o almoço de domingo, mas ele não foi convidado. Ouvir suas conversas com papai, desespera meu coração sentir seus suspiros preocupados trazem ao meu peito sentimento terrível de culpa. Como você deixou esses rumores entrarem em ti? Foi inevitável, eu sei. Por debaixo da porta vejo escorrer sangue, e sinto que sua vida está lhe deixando. Enquanto a minha desperta. Será que Ele aliviará todo o seu fardo? Ou lhe castigará por conta de mim? Não dormiste noite passada esperando-me chegar, eu sei que o que me disse era da boca pra fora. Não se preocupe,meu coração está ocupado com suas doces palavras, logo não há espaço para palavras não pensadas. Não posso mais me esconder dentro de armários, ou caixões. Terás de ser forte para suportar, mas eu estarei contigo mãezinha. Não ligue para o que os outros dirão, eles não sabem o que falam. Estão presos a preconceitos e logo serão massacrados por sua própria cegueira. Em vez disso me beije, e me aceite. Prometo cuidar de suas feridas, principalmente as que causei. Nunca te abandonarei, nem que todos os meus sonhos ousem se realizar, pois eles só serão meus sonhos se você estiver presente. Ainda hei de honrar cada renuncia que fez por minhas causas. As lágrimas que derramou durante sua vida, transformarei em orgulho mamãe. Vencerei, e sei que estarás comigo. Sopro em ti, amor e vida. Peço a ti perdão, por não ser modelo perfeito de filho inexistente. Peço perdão pelas promessas não cumpridas,e juro lutar para não repetir os mesmos erros. Decidi cuidar de ti enquanto beiras meu mar,enquanto teus rios alimentam meu oceano, assim como leite que de ti saia me alimentava. Sem querer fiz tudo, mesmo que quisesse. Sem querer mentia, e desmentia. Até sem querer lhe amei. Mas hoje amo por escolha, lhe amaria mesmo que teu sangue não circulasse por minhas veias. Amor, viramos sinônimos de eternidade, e por ela caminharemos juntos. Grato, por tudo. Aqui está seu suco e um lenço. Enxugue as lágrimas e o suor. Vou lhe fazer feliz,mesmo que a tristeza aponte em mim. Seu sorriso é irresistível, e um convite já lhe fora enviado. Amor é pouco.

Mem de Sá

Era manhã, domingo e maio.
Domingo segundo, dia de calor e céu limpo.
O prédio amarelo, enfeitado de limo e marcas de infiltrações estava cinza.
A Mem de Sá estava fria. As árvores nuas.
Envolto em lençóis e cobertores estava João. 
Afogado em lembranças e saudade.
Há quatro meses ele havia perdido sua mãe, em um acidente de carro.
Ela havia bebida uma ou duas doses de conhaque, para esquecer o tempo e suas feridas quase fechadas.
Pegou o carro, um chevette cinza 1988, e saiu dirigindo sob a lua cheia. Planejava ir ao infinito. 
Não passou da Av. Niemeyer. Encontrou-se com o mar revolto, despencando tragicamente pelo paredão rochoso. 
A dor tinha feito morada em João. Um menino simples, de cabelos cacheados, olhos de jabuticaba e coração maior que o mundo. João parou de dirigir, apegou-se ao seguro desemprego, e já devia dois meses de aluguel. Tinha terminado com o namorado, mesmo amando-o com toda sua alma. 
Sua barba havia crescido, ainda que falhada. Suas roupas estavam gastas e sua única companhia eram os livros. 
Aquela manhã parecia mais difícil do que todas as outras, as memórias de toda uma vida resolveram confrontar a mente traumatizada de João. Todos as manias, graças e gostos de sua mãe vinham sobre ele. E a cama lhe parecia o melhor - ou o menos pior- refúgio. Era dias das mães. Os restaurantes estavam cheios, lotados para ser honesto, ele teria que fritar ovos. Mas não tinha fome, então tanto fazia. 
A cama então estava molhada com a chuva de lembranças maternais. João levantou-se apegado ao maior legado deixado por sua mãe. E que por algum motivo ele havia ignorado durante esses meses de luto. Sua mãe era feita de esperança. Mesmo em suas angústias e frustrações ela permanecia inabalável, essa era a mensagem que sua mãe lhe passava, de que tudo era passageiro, exceto o amor. 

Naquele instante ele sentiu a presença intensa e aconchegante se sua mãe. Justo por ter entendido que o amor supera o tempo, vence a morte, cicatriza as feridas. João não estava só. E não havia motivos para lamentos. 

João então lavou seu rosto, enxugou as lágrimas, correrá até a primeira floricultura que por sorte ainda estava aberta. E escolhera as mais belas rosas amarelas, as preferidas de sua mãe,  e voltara pra casa, vestido em pijamas azuis, distribuindo sorrisos aos passantes. 
O prédio amarelo enfeitado de limo e marcas de infiltrações estava alegre e iluminava a Mem de Sá. 
As janelas da quitinete de dois quartos, foram abertas. As roupas de cama trocadas, flores enfeitavam todos os cômodos. João passeara por seu cantos, cobrindo o ambiente com poemas e cânticos. Em suas paredes florais ele pendurava risos e carinhos. A luz do sol passara a ser bem vinda. 
No anoitecer João foi ao cinema ver os filmes bobos paridos por Hollywood. 
Ele havia ligado para Dinho, se encontrariam como bons amigos, sairiam dali para um bom restaurante - de culinária italiana. João estava disposto a reatar todos os laços de amor que havia rompido por conta do luto. Se os encontrarem pelas ruas não perguntem detalhes sobre o filme, eles estavam fazendo poesia. 

sábado, 11 de maio de 2013

Lar

Estive caçando imagens que despertassem em mim desejos - ganho horas com essa mania. Desejos de liberdade, anseio por asas - mesmo que imaginativas. Desejos mais latentes e presentes pelo amor, que esforço-me para ter a cada dia - ser e ter, e já tenho dito isso. 

Garimpei essa ilustração lindíssima, que apesar da simplicidade, carrega uma grande verdade:  "O amor transforma uma casa num lar."



Imediatamente lembrei de Home do grupo californiano Edward Sharpe & The Magnetic Zeros, que aliás é uma das minhas músicas favoritas. Por mil motivos, o principal deles é a letra. Uma declaração de amor lindíssima, que poderia se resumir no trecho: " Home is wherever I'm with you."
Ah! O diálogo  durante a canção é uma fofura. Vejam o vídeo! O clima no estúdio é delicioso. 


Diante dessas graciosidades ligadas ao lar eu trouxe a memória uma nota muita amada por mim.
Que fala justamente sobre a minha casa, a casa dos meus sonhos. Uma moradia sentimental. 

Entra

Na minha casa eu quero uma biblioteca,
Com janelas bem abertas, cruzadas pelos raios do sol da terceira estação.
E uma vista para o mundo, grande, propenso a nós.
Quero ter meus livros espalhados, bilhetes já mofados, de amores de verão.
Eu quero ter uma varanda com cheiro de poema infantil, rimas doces e primárias.
E o céu melhor do mundo sendo teto e proteção.
Uma vivenda segura pra qualquer inspiração se sentir em paz.
Livre e dada, a qualquer um.
Um lar, reduto de traquinagens, onde qualquer coisa se torne motivo pra roda, e ciranda.
Quero a chaleira no fogão, e o café no ponto. Extra forte, e ainda assim suave.
E o cheiro invadindo a sala repleta de pufes coloridos, jogados de uma qualquer forma organizada.
Eu quero o Samuel tocando seu violão, ainda que despretensioso, Pedro presente, ainda que seja nos quadros. Quero as meninas conversando sobre luzes, cores e fuxicos.
 E seus cachos atrapalhados enredados em mim.
Quero os melhores filmes em exibição – aqueles que são um ótimo motivo para pipoca, chocolate, apertos e cobertores.
E sorrisos marcados como batom em guardanapos.
Quero nossos condões causando vertigem nos vizinhos. Tumultuando o sistema.
E um sistema de ar refrigerado eficiente, que reprima o suor, jamais o calor. Mas que também dê vontade de ficar juntinho.
Quero um quarto com uma cama de casal do tamanho do meu coração – pra caber quem me faz bem. E como de costume, Cássio e Alexandre emaranhados.
Quero uma morada onde meus amigos possam se sentir refugiados, livres da monotonia, do tédio e das tristezas e frustrações que me parecem comum hoje em dia.
Um lugar onde nossos sonhos sejam maior que qualquer lamento.
Quero um pôster da Marilyn no corredor. Flores no banheiro. E o Diego na cozinha fazendo o melhor estrogonofe do mundo – hm!! Salva de palmas!- Quero aquele whisky, caso alguém se fira, eventualmente. E muitas noites desperdiçadas com Esconde-esconde, Bastardos Inglórios...
Quero a Olívia com uma câmera na mão, filmando nossos tons. Roteirizando nosso fascínio.
Fotografias perdidas por dentre os livros, grampeadas em qualquer branco de parede.
Um seio de revoluções, berço para as mais belas criações.
Onde nasçam histórias que dariam filmes, casais que deságuem em lindos filhos. Canteiros de rosas e sambas.
Um hotel para abrigar amigos de longe, parceiros de luta. Aparelhos.
Uma casa, um bar. Para pensarmos aquilo que fomos e nos projetarmos pela eternidade.
Onde o tempo também seja amigo, parte da turma, também remédio.
Quero um quarto para guardar abraços, beijos e conselhos. De maneira que eles permaneçam vivos, lembrados. Mosteiro do nosso amor.
Um guarda-roupa que não comporta minhas roupas, mas que ama aquelas que comprei com a Hannah, em nossa ultima viagem. 
Quero gargalhadas que ocupem os corredores.
Quero saraus todas as terças e vigílias às sextas. Orgias à la carte. Lençóis cor de pérola com cheiro de lavanda – como o Cássio gosta.
Quero Chico e os clichês da juventude juntos num altar.
As polaroides que eu tanto gosto expostas na prateleira da sala de estar. E uma parede com os padrões feitos pelas Brunas e pela Letícia.
Quero baús com as palavras de Dalai Lama, as receitas da minha vó e as lembranças de Rimbaud e Lorca.
Relógios inspirados em Dalí. E um estêncil pedindo “Mais amor, por favor.”
Em algum canto, eu sei, vão ter copos meio vazios de cerveja e outros tantos meio cheios de mate.
Eu quero a felicidade minha, a nossa.

E o quintal? Como pude esquecer?!
Quero Tulipas, orquídeas e margaridas – como não?! –
Quero um balanço azul, e outro amarelo.
Uma fonte cercada de mudas de pimenta, enfeitada de moedas e quimeras.
Um lago cristalino, de água pura. E as roupas no varal.
Samambaias.
E saudade.

Casamento


Casa com afeto.
Casa comigo?
Vou pintar uma parede da sala de amarelo.
Amarelo ouro.
Caso eu não chegue cedo, pede pizza.
Mas tem sonho na geladeira.
Caso.
Domingo você faz estrogonofe?
Faço.
Casa cheia, todos os amigos na sala amarela.
Caso eu me esqueça me lembre de tirar uma foto.  

Coisas simples

Eu ainda insisto em catalogar nos meus cadernos amigos, ou em qualquer pedaço de papel, detalhes da vida que me fazem derreter em lágrimas, gargalhar mentalmente, suspirar - na certeza de que se está vivo - ou sorrir um sorriso de satisfação momentânea, plenitude.
São coisas como a voz da minha vó ao telefone, quando por acaso, ou por conta de sua intuição, ou ainda pela forte ligação que nos pertence, ela liga quando eu mais preciso. Seu timbre me parece celestial.
Tão divino quanto o tempero de minha mãe, que é semelhante a um beliscão necessário para saber que não está sonhando. É o sabor de casa, o gosto do pertencimento mútuo. De ser e ter.
Coisas como a aprovação do meu pai, o sincero "eu te amo" do meu irmão e a gargalhada escandalosa da minha irmã.
( Eu realmente precisava começar citando minha família. As fontes do amor.)
Eu lembro de me sentir pleno em algumas orações. Meus momentos de devoção. Que com o tempo se tornaram raros, quase em extinção. Mas que por algum motivo não consigo ignorar ou esquecer.
Eu ainda desejo ser um grande amigo de Jesus. Não houve poema maior que Ele.

Coisas simples como ver as estrelas, mesmo sem saber a qual constelação elas pertencem.
( Especialmente hoje o céu do Rio de Janeiro está lindo. Sei disso por que acabei de me sentar ao chão e contemplar este mesmo céu, pontilhado de estrelas - umas mais brilhantes que as outras, mas todas gloriosas- enquanto tomava suco de laranja na garrafa e calçava meus mocassins preferidos, já gastos.)
Coisas como o Arpoador, especial em todas as estações do ano, indiferente ao clima.

Muitas coisas provocam em mim esse desfastio, entre elas a pele sensível ao toque, o lábio sensível ao toque, um instrumento sensível ao toque, a tela sensível ao toque.
O bigode, rastro de leite; As gotas de chuva retidas pelas lentes dos óculos; O cheiro do café, que toma a casa inteira. O Amigo, ao qual classifico como amante. O sol das sete, da manhã e do horário de verão. A obra de Egon Schiele, as crônicas de Neil Gaiman e a música de Corinne Bailey. Os gominhos perdidos no suco de laranja. As rosas deixadas nas páginas dos livros, memórias secas. Os versos de Lorca, seu amor por Dalí. Nessas coisas pequenas quero deleitar-me.

No fim a felicidade é mesmo a herança, a união desses quês.
A reunião das simplicidades que acumulamos no entorno da vida. E incluo inclusive as tristezas e os desapontamentos, pois não há gozo maior que o de ter dado a volta por cima.