domingo, 8 de dezembro de 2013

nada

Os sinos da catedral, as rádios AM, os jornais de domingo,
O padeiro, o bicheiro, todos comentam, todos me falam.
As manhãs são vazias, vagamente vagarosas.
Por toda a cidade obras e engarrafamentos.
Em todo caso, nada além de sexo. Em toda casa, devia ter amor.
As tardes abafadas, sem brisa, sem brilho.
Céu encoberto de nuvens, sem forma.
Informam o horóscopo na televisão do bus, inferno astral.
Todos me falam: "Ele voltou, está bem e feliz."
Então ponho um disco do Leoni pra tocar e quando chega Os Outros eu só ouço minhas verdades.
Eu leio livros chatos, canto outras músicas, ponho água pra ferver, café pra coar, penduro as roupas no varal, passo pano no chão do quarto, passo as roupas que já estão lavadas, passeio com o cachorro que eu nem tenho, planto feijões no pote de margarina, pago um chá pra um mendigo, faço uma oração, varro a calçada, ponho o lixo pra fora, forro e desforro a cama, tomo cinco banhos em menos de duas horas, fumo um maço de cigarros, tomo meus remédios, corto as unhas.
Eu não consigo te esquecer.




quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Rio Catu

Águas calmas e escuras, mistérios e luar.
Meu avô, um pescador, minha vó contava que um dia a maior cobra do mundo se enroscou na sua galocha e ele conseguiu se livrar da maldita. Trazia piabas nos potes de margarina, e esse era o alimento para toda a família.  Meu avô era cantor, entretanto nunca me pôs para dormir com uma canção de ninar. Ele era malandro, homem dos bregas da Bahia.

Águas traiçoeiras, levaram a pobre Nina, oito anos e só. Não casou, não pariu, nem sei se viveu o tempo da primeira paquera. As plantas aquáticas enroscaram-se em seus pés e ali ela padeceu. Seus irmãos não conseguiram salva-la e eu desconfio que desde aquele dia eles não foram mais os mesmos. Eu lembro do dia, talvez eu tenha chorado.

Caminha-se pelas estradas de terra, calejam os pés. As crianças choram de cansaço, as mulheres descem as trouxas de roupas da cabeça ao chão. O sol castiga. Tangerineiras. A terra é tangerina, o horizonte é tangerina, a pele enrugada, marcada do tempo, da dor, também é. Calú, sertão. Dois dias e avista-se o riacho, dividido pela ponte por onde o trem de cargas passa. De um lado as lavadeiras, do outro as mãe-de-santo. Velas acesas, roupas estendidas nas pedras. Os meninos peixes são donos do mundo, filhos das sereias, nadadores exímios.

Batizam-se os homens, vestidos de branco encontram seu Deus. Declaram ao mundo a quem pertencem. Holocausto e ressurreição. Pássaros sobrevoam as águas. Eu sinto Deus.

Há a estrada, há a memória. Um velho homem sentado às margens do caminho, faz companhia à solidão. Ele era negro com os cabelos tão brancos. Cantava um hino antigo, contemplava o céu. Este senhor caminha até mim, beija meu rosto e me entrega uma chave antiga.
Na estrada, na memória. Na beira do rio há um baú.

Eu estive quebrado em milhares de partes. Aprisionado em espelhos, perdido entre a vaidade e meus desejos. Distante da essência de minha alma. Andei pelas ruas durante a madrugada vendendo meus corpo por um trocado qualquer, sujando minhas mãos, envergonhando meus antepassados.

Dentro do baú eu encontrei palavras gastas, pinturas antigas, receitas de família, bonecas e vestidos de chita. Eu vi retratos de família, orações e histórias folclóricas. Eu me encontrei.
Então eu desci até o rio, e o reflexo do sol nas águas me iluminava de forma especial. A brisa da tarde me envolvia, e eu senti-me tomado de nostalgia e saudade. Primeiro molhei meus pés pintados de barro, aos poucos fui avançando, até o momento em que perdi o controle do meu corpo. Eu estava totalmente entregue ao mover das águas, e quanto mais profundo eu mergulhava mais vulnerável eu me sentia.
Este era o rio da vida, era o rio do amor.
Enquanto eu mergulhava guerras foram travadas, homens maus gritavam calúnias contra mim. Porém quando se está entregue as águas, envolto na sinfonia dos mares, nada podes lhe atingir.

Somos como um rio, sou rio. Nutrimos nos uns aos outros. Percorremos continentes, cruzamos estado e países, irrigamos terras secas com sorrisos, lágrimas e afeto.  Desaguamos vida nos seios de nossos amados. 
Águas da vida.



Bad girls

Deixe-me fazer um mapa do teu corpo. Eu começaria com seu lábios carnudos, de onde saíram as maiores mentiras que eu ouvi, e as mais convincentes juras de amores. Teu batom combina com o tom do sangue que foi derramado. Seus cabelos longos e desgrenhados são com os de Medusa, amedrontam, petrificam, nos envolvem em jogos criados por sua mente, vazia, suja. Seus olhos sãos como a madrugada, apresentam-me aos pecados até que suas mãos me conduzam a redenção. E em teu sexo saciei minha carne, estive dopado desde o momento em que sua loucura superou a minha. Eu trocaria toda a fama e os diamantes que meu dinheiro pode comprar por mais um minuto sob teu domínio. Eu irei vestir-me com pele de lince, e serei feroz. Rasgarei seu peito e terei como troféu seu coração. Algemaste meus sentidos ao teu ego, de modo que eu serei sua escrava por toda eternidade. Serás eterno como um estátua de bronze de um general, sem coração, sem trégua. Eu lhe amaria mas sua alma é triste e não entenderia a simplicidade deste sentimento. O cigarro está acabando conosco e os anti-depressivos já não me acalmam mais. Teus pés sempre calçados em louboutins também lhe afastam da superfície, superficial. Nossos pulsos guardam cicatrizes pois achamos que essa era nossa única saída. A cidade assiste a nossa queda, as luzes irão se apagar, meu bem. Os holofotes não serão eternos. A juventude também é passageira. Mas a amargura dura. Talvez eu apague nossas memórias como em Brilho Eterno, ou apenas recorte seu rosto das minhas fotografias. Talvez dê tempo, talvez o tempo. É só mais uma tempestade.

sábado, 26 de outubro de 2013

Parte IV

Para os amados e amantes.
Para aqueles que dariam sua vida por amor, e todos aqueles que tiveram suas vidas tiradas por ele.
Os pulsos marcados, os quartos inundados por lágrimas, sangue e melancolia.
A sala vazia, o peito apertado.
Para aqueles que mataram por amor.
As fotografias queimadas, a lâmina da tesoura separa o mundo em dois.
Guerra fria.
Não há como subir a montanha, a neve tomou as pistas.
Só há escuridão.
Para os que estão no banheiro, insanos, perdidos.
Lhes deixei versos meus.
Para os que se deixaram levar pela maré, mergulharam profundamente.
E os que se entregaram ao fogo.
Os jornais continuam noticiando tragédias. Desliguem a televisão.
Para todos os que estão nas esquinas, nos quartos de hotel, envoltos em lençóis.
Há os que venderam suas almas, os solitários nos bordéis.
Os covardes e corajosos.
Para os que foram proibidos de amar, e não encontraram o sentido da vida.
Existem os revolucionários.
Para os desprezados que pedem doses e mais doses.
Amy, eu sempre te amarei.
Para os que foram comprar cigarros e nunca retornaram.
Existem os que esperarão eternamente.

Na periferia da cidade, onde quase não existem residências, apenas galpões de empresas.
No breu daquelas ruas, onde só se escuta a voz da consciência e o medo flui pelas veias,
havia um prédio de esquina todo feito de tijolos, parecia abandonado há poucos anos.
Numa das paredes laterais estava escrito com tinta vermelha uma frase de Lolita,
Butrus tinha deixado o endereço desse lugar num bilhete fixado a minha agenda.
Quando ele apareceu com os bolsos do blazer cheios de flores silvestres e tendo como melhor acessório seu sorriso senti paz, loucura e desejo.
Ele era brilho, e iluminava todo o subúrbio.
Would you be mine, would you be my baby tonight era o que estava escrito na lateral,
as suas mãos pintavam meu corpo de vermelho, minha alma estava entregue.
Sob as estrelas nada pareceu real.

Parte III

Quarta é dia de feira, é dia de tédio. Eu acordei sem graça, sem salto, sem saco.
A cama fria, arrumada. O sol invade o quarto.
Aqueço a voz, peço um pouco de pó de café à vizinha enquanto a água ferve.
Abro um livro de poemas, Quintana, leio uma estrofe e procuro guardar na memória.
Noto as lágrimas secas e corro para a pia. Encaro o espelho, beijo meus lábios.
Café. Elevador. Feira.

Amo a barraca de melancias, tem amostra grátis. Compro laranja, peço alho pro menino no carro de mão. Odeio as barracas de peixe. Não sei tratar peixe, nem carne alguma. Eu deveria ter virado vegetariano. A feira é linda. É feita de cor, textura e sabor. Tem gente da roça e do interior.
É um dos poucos lugares na cidade onde consigo fugir do computador. No meio da feira alguém me olhou Enquanto caminho percebo um olhar. 
Era alguém de olhar sincero, foi a primeira coisa em que pensei. Seus cabelos eram longos, cobriam parte do rosto. Mas eu o via de forma clara. Nossos olhares eram reais, eu pensei. Ele estava com um pulôver rosa de âncoras azuis, bermuda e chinelos.

Nos encontramos na barraca de batatas, eu sorri pela primeira vez naquele dia.
O nome dele é Butrus. Eu não me contive, fiz a piada “Até tu, Brutus!”. E ele pareceu achar graça.
Eu disse que sabia fazer um purê de batatas dos deuses – como se purê fosse a coisa mais difícil do mundo. Ele se ofereceu para provar.
Foi a primeira vez que eu levei um desconhecido para minha casa durante o dia, também foi a primeira vez que eu fazia isso consciente.  O estranho era ter a impressão de que eu o conhecia há anos.

Enquanto eu cozinhava as batatas e pensava em algo mais impressionável para o almoço,
Butrus pegou o violão e tocou sua primeira música triste.
“I was unafraid, I was a boy, I was a tender age
Melic in the naked, knew a lake and drew the lofts for Page...”
Eu chorei e pus a culpa nas cebolas já cortadas.

Passamos a tarde nos achando, dividindo memórias, nos entregando.   
Ele me entregou uma foto de Polaroid. Eu estava com um panamá e uma camisa floral. Eu podia me lembrar do dia em que fui capturado, mas não achava possível ter sido fotografado. Butrus me contou do seu hábito de registrar os rostos que o atraiam. Eu contei da minha mania de desenhar rostos na parede. Ele pediu para me ver desenhar. Eu o escolhi como tela.
Pintei seus lábios de carmesim, os meus serviram de pincel. Naquela tarde fomos arte e artista.

A noite não tem lua. Breu!
O calmo bairro de Laranjeiras escuta atento os lamentos e murmúrios de Margô.
- Ridículo! Babaca! Filho da puta!
Mais cedo ela havia flagrado seu namorado – um rapaz latino-americano de vinte e poucos anos, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior. Uma cópia meio ridícula do Belchior. – transando com a menina com quem dividia o apartamento. 
Margô não disse um pio sequer. Pegou seus discos, jogou algumas roupas na mochila e disse que voltaria outro dia pra pegar o resto das coisas. Um maço de cigarros depois, ela só não conseguia entender o porquê de sua raiva, se no fundo ela sabia que não amava o garoto.
Ele era pouco mais que um consolo. Mas ainda assim ela sentia-se terrivelmente traída.
Margô já sabia para onde ir. Mas antes precisava parar em algum boteco, beber umas doses de Johnny Walker e não deixar o acontecimento passar em vão.
Ela deixou o bar junto com a noite. Passou na padaria e pra não chegar ao seu destino com as mãos vazias tratou de comprar croissants e alguns biscoitos.

A campainha tocou cedo e por sorte eu já estava de pé.
Quando abri a porta me assustei, Margô não aparecia na minha casa há meses, e a única certeza que eu tinha era da não sobriedade dela.  Sentei-a no sofá e logo tratei de preparar o café – eu tinha feito mercado no dia anterior, então tudo bem receber visitas. Da sala ela gargalhava suas desgraças amorosas, e reclamava do mal estar que dá quando se mistura whisky com cerveja. Ela pediu pra ficar uns dias comigo, eu adorei a ideia! Pensei em arrumar minha cama, mas ela já havia pegado no sono ali mesmo, no sofá de bolinhas azuis. Deitou em cima da sacola com os croissants, eu não resisti e peguei um dos menos amassados.

Margô chegou num dos dias mais quentes do ano. Ela passara o dia inteiro dormindo, e mesmo com a maquiagem pesada, com os rastros pretos das lágrimas, ela parecia a criatura mais angelical, mais sublime do mundo. Naquele instante eu a amei como uma irmã.
Tropecei em sua bicicleta quando sai de casa e na volta trouxe rosas novas para presenteá-la. 

Cadeira de balanço, cinzas no chão da varanda, já era noite e a lua surgia tímida.
Ela veio até mim, com os cabelos mais curtos, mais negros – o banho havia lhe feito bem, seu rosto estava vívido – quase nua.  Selou seus lábios nos meus, foi como dizer obrigado. 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Parte II

Alice bailava sobre o palco. Meus olhos a contemplavam enquanto minh'alma enxergava-a celeste, cantando para os deuses. Vestida de branco, sangue nos lábios. Eu a devoraria.
Aquela pele branca que escondia aquele universo de possibilidades, aquelas mil faces. Um personagem por dia, uma nova Alice a cada novo dia. Eu as devoraria.
Eu comparo pessoas com planetas e constelações. Conheço alguns Vênus, certos Martes.
Alice é um sistema solar inteiro.
Por mais excitante que isso possa parecer conviver com uma pessoa assim é confuso, estressante e desafiador.
É como um distúrbio tripolar. Ela são, elas é tanta coisa.
Onde está o limite entre o sonho, a realidade e a atuação?
Ela sonhava em ter uma história como a de Lily Braun.
Ela interpretaria Yerma numa montagem de Federico García Lorca feita por uma companhia teatral lá de Joinville.
Mas para mim ela era uma menina ingênua, com o olhar perdido, um par de peitos geometricamente perfeito e o caminhar mais encantador do mundo.
Eu a amei todos os dias. Todos os dias em que a reconheci.
Todos os momentos em que a encontrei em seu olhar.
Estávamos sem um tostão no bolso, o aluguel estava quase vencendo e não conseguíamos um emprego que pagasse dignamente e contemplasse nosso estilo de vida em lugar nenhum.
Passamos dias e noites trancados em casa, nos alimentando de luz, música e sexo.
Éramos como canibais, um comia o outro. Eu adorava me deliciar com pedaços de sua coxa, macia, cheia de carne. Ela mordia minha bunda, bebia minhas carícias, se satisfazia com meus passos de dança, com minhas palavras lançadas em tua boca.
Por sorte nós dois conseguímos um bico num festival de cinema francês que iria rolar na cidade.
Foram duas semanas assistindo quase todos os filmes que foram produzidos pelos franceses naquele ano.
Foram tantos filmes, tantas histórias diferentes. Closes, cortes, panorâmicas. Dramas, comédias, e Alice absorvendo tudo o que via. Um dia nós vimos A vida de Adele e no outro Alice pintara seus belos cachos dourados de azul, azul anil. Ele ainda parecia celeste, mas estava mais feroz, mais animal.
E mesmo com dinheiro no bolso ela queria se alimentar de mim.
E eu a alimentei enquanto era comédia romântica, com seus closes, sendo drama.
Os dias se seguiram, eu escrevia compulsivamente, as agendas estavam lotadas de notas, poemas e pequenos versos. Eu estava certo de que conseguiria ser aprovado num primeiro edital de incentivo à cultura. Alice estava fazendo testes para a montagem de Yerna e quando o resultado veio foi mágico.
Ela estava tão empolgado, eu estava tão orgulhoso.
Foi a primeira vez em que o olhar dela não parecia perdido.

Alice era minha amada e bailava sobre o palco. Vestida de sangue, lábios pálidos.
Ela estava em minhas agendas, pois era minha inspiração. Eu a desejara.

Alice estava em meus poemas.
"Como num romance..."
Nós havíamos assistido tantos filmes, eu a devorara.
"Como no cinema..."
Eu não havia mandado flores, mas plantamos feijões em potes de margarina.
Alice era Lily Braun.

Os dias se passavam e ela estava imersa no universo criado por García Lorca.
Ela me tomava como Juan e ensaiávamos por noites inteiras.
Alice queria ser Yerma, e a ideia principal do espetáculo é como uma mulher se casa com o homem errado e por ele tem que sofrer durante toda a sua vida.
Primeiro vieram as romarias, os ritos e canções. Havia dinheiro, mas estávamos famintos. Em minhas agendas as páginas de outubro foram ficando vazias. Alice se tornara humana e seu olhar parecia mais certo e ciente do que nunca.
A data de estréia se aproximava, e as discussões tornavam-se frequentes. Rotineiras.
Minha menina agora era uma mulher fatal. Emocionalmente desequilibrada. Vestia-se de vermelho, usava decotes mais profundos, expondo seu peitos belíssimos. Era o touro e o toureiro. Um vulcão em erupção.
Acordamos numa manhã de quinta, era o dia da estréia. Quando os meus olhos se abriram logo depararam-se com os de Alice, e os dela pareciam totalmente determinados e convencidos do que fariam.
Ao me encarar no espelho notei um olhar distante. Eu avistei o batom alaranjado próximo as escovas de dente. Escrevi um verso no azulejo.
- Merda.
Alice bailava no palco.
Entrei no camarim, deixei o buquet de rosas vermelhas em cima da bancada.
Sai pela noite, sem luz, sem rumo. Entrei em um bar qualquer e pedi uma dose de whisky. Havia uma mulher curiosa ao meu lado, uma espécie de Amy Winehouse, ela me acompanhou no pedido.

Quanto a Alice, ela não era mais Lily Braun.

Nunca mais romance, nunca mais cinema, escrito em batom.



Parte I

Alice era o tipo de garota que brilhava, era como um anjo, seus cachos tomavam as ruas, o sol invejava suas cores quentes, seu ar juvenil. Era como um tarde de primavera, vestida de flores, cheia de tons. Os dois irmãos brigavam pela melhor visão de Alice. O mar se agitava toda vez que a brisa espalhava seu perfume pelo Leblon. A menina beirava os seus vinte anos, mais carioca que nunca. Era pura bossa. Jobim a idolatraria, junto com Vinicius a imortalizaria em uma canção.

 Margô não gostava do bom-senso, nunca ligou pra etiqueta, sempre aplaudiu a rebeldia. Parava em qualquer bar que lhe servisse um bom whisky. Seus melhores amigos eram os discos dos Sex Pistols. Ela tinha uma tara por bolinhas de sabão, e havia enfeitado sua bicicleta com rosas vermelhas. Margarida mudou seu nome, não tem telefone e ainda aperta a campainha dos vizinhos. Tornou-se Margô, que detestava o calor infernal do Rio, não costumava ir à praia e nem sabia sambar. Cortara seu cabelo com uma navalha no dia em que fora traída, o pintou de preto, fez sua primeira tatuagem – o mapa-múndi na coxa, e pôs um piercing no mamilo. Suas unhas esmaltadas eram vermelhas como seus lábios. Seus olhos castanhos, seu pijama era verde, com babados.

Butrus chorava pelos cantos, cantava no chuveiro, filmava a cidade, é provável que ele tenha fotografado teu sorriso distraído, pois essa é uma das muitas manias que ela possui. Butrus é apaixonado por gente. Eu me apaixonei por ele desde o primeiro instante. Os cachos castanhos que cobrem os ombros, e se deixam levar pelo vento. Sua cor de bronze, seu olhar sorridente. Ele é o tipo de mistura improvável que deu certo. Seu pai é um francês, professor de história e apaixonado pela cultura oriental, sua mãe é uma libanesa que deixou sua família em busca da liberdade e de um amor que não fosse escolha do pai. Butrus herdou dos pais a inteligência e a sede por liberdade, mas uma beleza única. Ele era o homem dos meus livros. Estava sempre vestido com camisetas listradas, bermudas coloridas e chinelos – ele detestava relógios e sapatos, pois acreditava que de alguma forma existiam para aprisionar. Em casa passava a maior parte do tempo sem roupa, sentado na janela, fumando um baseado ou lendo um livro. Amava os CDs do Bom Iver e era apaixonado pelo Justin Vernon, que o havia convertido ao time dos barbudos. Ele costumava tocar uma canção triste antes de dormir, era sempre madrugada. Ele passava as noites vendo filmes antigos e pintando os rostos de quem havia chamado sua atenção durante o dia. Butrus fazia amor na sala onde revelava suas fotos, beijava mulheres e homens. Tatuara O Beijo de Klimt em sua costela direita e no pulso esquerdo o nome de uma flor. Butrus era apaixonado pela vida. E desfrutara da mesma da forma mais intensa possível. Eu não me esquecerei daquele sorriso malicioso, do olhar inocente. Das palavras doces que desenhavam Butrus. No seu pulso direito havia pulseiras do Senhor do Bonfim, três, presente dos seus melhores amigos.

 Uma cortina de renda, deixo a luz entrar, padrões solares tatuados na pele. Dias felizes estão aqui outra vez. Janelas embaçadas, nomes escritos no vidro. A cidade dorme. Chove. Amanhece. A cama está desforrada. A balança quebrou, estou acima do peso. O ventilador faz um barulho insuportável, e não ameniza o calor. Um ovo a menos para fritar, eu deveria estar feliz. Os letreiros de neon já estão desligados. Por mim eles brilhariam a vida toda. Um dia eles escreveram meu nome. Um dia a cidade clamará por mim.
 
“Eu não me esquecerei daquele sorriso malicioso, do olhar inocente.” 

 Eu canto coisas que nunca vivi, por isso escrevo em agendas. Eu crio compromissos. Eu vivo coisas que já cantei. Minhas letras são o que me mantém vivo. Eu não sei mais o que é real. Talvez o meu passado seja, por isso, começarei por ele. Se me acharem, lembrem-me quem sou.

Eu me perdi, e me perco todos os dias, quando descubro que sou humano. Quando meus ossos doem, quando a carne intercede ao espírito, clama a calma das noites bem dormidas e de uma vida saudável. O espírito adoece por amor a carne? Não. Ele voa, livre, samba e se embebeda dos sorrisos boêmios, dos beijos amigáveis. A carne é humana, o espírito é ser.
Eu me perco quando teus olhos fogem dos meus, e eu não me sinto amado.
E é compreensível se perder quando não se encontra um abrigo durante a chuva, nem os teus ombros largos se colocam às minhas lágrimas. Eu me perco quando uma ditadura reprime cus e culturas, brilhos e estrelas.

"E eu a falar de estrelas, mar, amor e luar."

Eu me encontro.
Me encontro em tua voz e violão quando cê toca Esquadros e canta mais forte na parte do "divertindo gente e chorando ao telefone", eu me encontro porque sei que pensas em mim.
É fácil me achar na melancolia colorida de Frida Kahlo, e nos meus abraços partidos.
Eu escrevo notas com batom alaranjado nos azulejos do banheiro. Eu escrevo nomes, números de telefone, o dia em que o gás foi comprado e declarações falsas para amores forjados.
Eu sempre fui um menino solitário. Eu disse que falaria do meu passado, mas essa é uma viagem inesperada para mim.
Numa cidadela qualquer, um lugar sem importância para quem é importante. Onde as pessoas ainda acreditam em anjos e demônios, valorizam as  tradições mais conservadoras, e fofocam por toda uma noite sentadas nas portas de casa. Onde todos sabem de todos, e todos têm seus grandes segredos. Neste lugar, onde ainda existem casas de taipa, e casas de farinhas. Casas de santo e casas de oração, casas de prostituição e casas em construção, onde meninos e meninas perdem sua inocência todos os dias.
Eles se vendem por um real, ou a moeda é como um memorial triste e humilhante do dia em que foram tocados.
Lá meninos não vestem rosa, não brincam em brinquedos cor-de-rosa.
Lá havia um menino solitário. Ele foi seduzido pelas luzes, pelos letreiros luminosos, que um dia ainda escreveriam seu nome nas fachadas dos teatros.
O menino gostava de rosa. E na terra onde todos eram santos isso parecia muito errado.

Eu ainda sou um menino solitário. Aquele que reuniu seu pertences numa trouxa e saiu pelas noites, sem rumo, sem arrependimentos. As luzes me atraíram. As luzes pertencem a cidade.

Eu seria o sol. Quente, símbolo de vida.
Eu roubaria o sol. Alguém disse que o sol irá morrer.
E imagino o quão grandioso será o último adeus do sol, por que suas idas diárias já são espetaculares.
Eu ainda me lembro da vista do pôr-do-sol que eu tinha da porta dos fundos de casa.
Era lindo, glorioso. Como eu queria ser.
O sol é a maior referência de luz que eu já tive.

A luz invade a sala, ilumina um pedaço do papel de parede floral já desbotado.
Eu ando pelo mundo. Sou atraído pela luz, desta vez ela se reflete em seus olhos.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Vistam-se de branco

Se eu partir em breve e meus dias não forem tão longos quanto o sol quero que me cubram com as flores das mais diversas cores. Quero que vistam trajes brancos, alvos com a neve, e cantem junto com os anjos. Quero que pensem em mim quando o sol se puser. Pois de todos os momentos da vida, os pores-do-sol são os que mais me pertencem. Durante eles eu me entrego para a vida, ou a morte. Peço que se tiverem de derramar lágrimas, que o façam no mar. Pois de algum lugar eu as colherei. Peço que dancem na chuva, pois esta será minha resposta. Desse modo saberão que eu também sinto falta de vocês. Se eu partir, tenham certeza de que sonhei o que muitos não sonharam em uma vida de cem anos. Saibam que viajei por muitos lugares, conheci pessoas incríveis – no sentido literal da palavra, fui amante de muitos amigos, amigo de muitos amores. Tenham certeza de que amei incessantemente, que os desejei com toda minha alma de criança. Por favor, experimentem andar descalços, sintam a energia do solo, gastem horas olhando o céu, contemplem as estrelas e se me for permitido eu os presentearei com sonhos tranquilos. Prometam-me que aprenderam coisas novas, se desafiarão. Se eu morrer jovem, serei a liberdade nas asas de um pássaro. Serei o cobertor de muitos durante a noite. E o arco-íris será o rastro de minhas novas vestes. Quando eu partir mantenham-se atentos ao som da brisa, serei eu, entoando a eterna canção de amor que compus para vós. Reúnam-se para tomarem café durante a tarde e lembre-se do meu sorriso torto, mas sincero, das minhas histórias exageradas, do meu colo e do meu macarrão. Vistam-se com vestes brancas, recomecem a cada dia, vivam ferozes. Por mim, por nós.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Projeto Livre



O Projeto Livre foi um dos momentos mais importantes em minha vida. Onde eu pude mergulhar no âmbito da liberdade pelas lentes da literatura e traduzir isso para um universo visual. Foram meses árduos, de muita pesquisa, muitas frustrações. Não conclui o projeto, mas pretendo ressuscitá-lo em breve, incluindo novos nomes da literatura, usando alguns dos meus textos e uma nova dinâmica visual. Enquanto isso não acontece, resolvi divulgar o resultado parcial do Projeto.
Espero que sejam tocados como eu fui.

sábado, 24 de agosto de 2013

Negros

Pelas ladeiras da cidades desciam os meninos, embalados pelos tambores da Bahia.
Negros, vestidos de farrapos, famintos.
Quem disse que a escravidão acabou? São todos escravos da certeza de merecem essa vida (esteriótipos, preconceitos, sistemas de poder.)
Desconhecem que são reis e rainhas, são a corte africana, os senhores da alegria.
Onde estão os meninos?
No cais, lutando capoeira, nos calabouços prestando culto, nos morros, fazendo samba.


{Em homenagem ao gênio Jorge Amado, e aos meninos todos que possuem uma estrela no lugar do coração.} 

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Até que ele aconteça com você

Eu deixei a minha coleção de poemas num saco de pão,
pendurado na porta dos fundos da sua casa.
Eu precisei espantar toda a tristeza que me afligia,
então caminhei até a cachoeira onde a noiva abandonada deixara seu véu.
Ali perto fica aquela casinha de taipa, pintada de amarelo, onde nos beijamos pela primeira vez.
Querido, gravei um coração com nossos nomes numa goiabeira, porque goiaba é a fruta preferida dos anjos.
Parecia o paraíso. As flores nos escondiam, nos enfeitavam. E as borboletas gastavam suas vidas inteiras a nos olhar.
Nosso amor foi gostoso como tricô, como sorvete de baunilha e junto todas as coberturas do mundo.
Era livre, colorido como quando há um festival de pipas no céu do subúrbio.
"Mas agora é tarde demais para consertar o que foi quebrado."
Nossas palavras se desencontram, nossos abraços despedaçam-se.
Não há como voltar no tempo, nem como colar os cacos espalhados pelo chão.
Agora eu não sei. Não, eu não sei.
Mas você não acredita no amor, até que ele aconteça com você.





{Inspirado em toda a maestria de Corinne Bailey Rae.}

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Sem título

Talvez (não) dê tempo para beber mais um pouco de café.
Eu posso me perder. Eu não tive certeza.
Eu apago as luzes. Eu grito para o mar.
Eu me escondo. Eu costumo mentir, mas não me tenho como filho do diabo.
Eu não gosto de medir, as palavras, os sonhos, os amores e também as lágrimas.
Elas cairão, para que eu me sinta vivo.
Eu tenho orgulho da minha bunda, mas estimulo minha mente.
Eu gosto de nadar sem roupa, e detesto pendurar roupas no varal.
Eu gosto de paredes coloridas, e também gosto do reboco.
Eu devoro dicionários, anoto novas palavras em quaisquer papéis e depois esqueço tudo.
Eu tenho amigos que arrotam, um irmão que tira meleca, e eu solto puns em elevadores.
Eu quero conhecer um amor no ônibus, um açougueiro no metrô.
Eu deveria me perder mais.  Quilos também.
Eu me perdi em tantos pensamentos.

Talvez o café ainda esteja quente. 

domingo, 23 de junho de 2013

Memórias tardias

As tardes de domingo, quase sempre entediantes. 
Quase sempre perfeitas para um dormir. Ou para se voltar das viagens dos sonhos.
As tardes de domingo são perfeitas para se ouvir bons discos, como os do James Taylor. 
Para beber o vinho escondido no quarto dos pais, para se lembrar da infância. 
Dos almoços de domingo esticados, aqueles em família, com toda a família e isso quer dizer: Até com os tios chatos, os primos metidos e as cunhadas encrenqueiras. Da comida caseira das avós, que por mais simples que fossem, nunca eram simples. Sempre seriam mais especiais que qualquer menu de qualquer gourmet. Disso que tenho saudade.
Essas lembranças sempre retornam aos domingos. Depois do almoço. Quando a cidade parece calar. 
E os programas de auditório invadem a televisão com seus shows baratos. 
Eu prefiro os dias frios, os domingos cinzas, que por alguma razão sempre antecedem as segundas escaldantes. 
Domingo é dia de primo, não de amigo. É o dia em que meu irmão despeja seus milhares de brinquedos por todo o quarto e cria suas cidades, suas guerras. Põe seus heróis para trabalhar. 
Afinal os heróis de todos os dias estão tirando aquela soneca. Meu pai por exemplo, adora dormir na rede depois do almoço. Embaixo da rede está o jornal. Eu sempre gostei mais dos jornais aos domingos. São mais robustos, menos sérios. 
As tardes de domingo quase sempre são entediantes. Mas podem e certamente são únicas.
São mais familiares do que as tardes de quinta, ou as noites de sexta. Talvez eu não anseie por elas, como aguardo ansiosamente pelas noites de sábado, mas eu as amo.  



{Nota: Lembrei que eram nas tardes de sábado que o carro dos quitutes passava na minha casa. Era uma  Brasília amarela, sem bancos traseiros. Com bandejas de alumínio recheadas com bolos de fubá, tapioca e cocadas de coco. Biscoitos de sequilhos branquinhos, dos que se desfaziam na boca e um bolo de Aipim inigualável.} 

terça-feira, 28 de maio de 2013

nu

Digo, amo a nudez.
Por mim andaríamos nus, como viemos a esse mundo.
Dias quentes, dias frios. E ainda estaríamos nus.
Tatuados, cercados de flores. Nus.
Banhando-se nos mares, enfeites de neve.
Libertos dos segredos. Nus.
Sem essas ideias e padrões. Eu queimaria as capas de revistas.
Banhando-se sob a lua, livres dos preconceitos.
Tocados pela luz. Nus.
Eu defendo uma sociedade nua. Com a alma descobertas.
Com as imperfeições à vista.
Paus, peitos, dobras e lábios. Todos livres.
Eu adoro a moda, adoro minhas bermudas cheias de cor.
Mas eu prefiro a nudez.

Sobre a igreja

Nesses últimos dias tenho refletido muito sobre o papel da igreja cristã na sociedade.
E o que me atenta são fatos ocorridos dentro do universo cristão, ou dessa rotina. E dos desdobramentos disso na relação com outros grupos.
Dentro de algumas igrejas temos visto ditaduras cada vez mais frequentes. Ditaduras de líderes e pastores, que se apegam em textos isolados da bíblia, defendendo uma soberania das ideias e atitudes pastorais. Aliás é cada vez mais comum vermos pessoas apegadas a fragmentos bíblicos, que quase sempre calham em seus próprios interesses.
Nasci num lar cristão, cercado de ensinamentos bíblicos e da valorização do cumprimento das leis de Deus. Tendo a palavra de Deus como guia de vida. Vivendo a suficiência das escrituras.
Ao crescer me deparei com um cenário averso aos principais mandamentos bíblicos. Um ambiente dotado de hipocrisia, ira e julgamentos. Isso despertou em mim repulsa de tais condutas e afastamento da religião, e também o rompimento de um relacionamento com Deus.
Um fato que também contribuiu para isso é e foi minha orientação sexual. Sou homossexual, portanto sou alvo das principais críticas e ofensas evangélicas.
Nesse tempo distante tive contato com pessoas de outras religiões, estudei algumas outras e o que mais me chamou a atenção foram as semelhanças das colunas que sustentavam essas religiões.
Em todas elas o amor cumpre papel de destaque.
Pois então, nossa sociedade capitalista que só, incentivadora da competição, semeadora da individualidade e que presencia a extinção de costumes para uma convivência melhor entre os povos, como por exemplo o respeito, deveria ser o alvo da influência desses praticantes religiosos.
Porém o que me parece mais ocorrente é o inverso. Igrejas cada vez mais empresariais, templos inflados de orgulho, soberba e intolerância. Lobos com suas fantasias de cordeiros imaculados.
Considero a igreja (instituição) um lugar de cura, comunhão e adoração a Deus. Além de ser uma escola de profetas. Sendo um lugar de cura, aqueles que estão enfermos merecem e devem sim ser acolhidos. Logo, todos os membros encontram-se em situação de igualdade, já que todos somos pecadores e sujeitos a erros. Estamos todos em tratamento.
Com isso não vejo razão para homossexuais serem agredidos, mulheres serem envergonhadas, e cidadãos seguidores de outras crenças serem rejeitados. Todos, sem exceção merecemos ser acolhidos e beneficiados pela paz e amor presentes nessa casa.
Devemos então nos pôr como servos e imitadores de Cristo. Levando-os ao caminho da vida, ao bálsamo que cura todas as feridas, a fonte de alegria, príncipe da paz.
Para mim esse é o papel da igreja na sociedade. Ser sal e luz.
Quanto ao meu relacionamento com Deus? Eu não vejo razão alguma para me afastar de uma pessoas tão linda e perfeita como Ele. Ele em qualquer forma e compreensão. Quero mais ser tomado por seu espírito e ser influenciado por seus mandamentos de amor. De modo que possa contribuir com uma sociedade justa, repleta de pessoas que se importem umas com as outras, que valorizem as coisas e momentos simples. Que amem.
Quando a igreja começar a viver o amor de Deus. Então testemunharemos o avivamento da igreja. E amar não quer dizer concordar com o pecado, nem aceitá-lo. pois esse não é o nosso papel. Amar também é apontar o caminho certo, apontado nas escrituras sagradas. Mas aceitando a liberdade de escolha de cada um.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Éden


Nos dias longos de verão, me pus a construir um amor.
Num dia de verão ergui um castelo com a areia.
Não demorou muito e o domínio do mar se fez presente,
Pondo minha arquitetura ao estado de ruínas.
Castelo de areia é por natureza instante, efêmero.
Tu constróis, habita-o e ergue muralhas ao seu redor.
Nos dias longos de verão, quando a chuva é severa e devasta,
 Pus-me a regar o meu amor.
Nestes longos dias edifiquei uma cidadela,
Porém as chuvas eram repentinas, devastadoras.
As enchentes destroem cidades, inundam sonhos.
Os montes mais altos desabam.
Durante o meu verão, o hemisfério Norte vivenciava um rigoroso inverno.
Construíram, portanto um abrigo,
Um iglu, talvez.
E eu então, aqueci meu amor.
O rigor do inverno é esbranquiçado, a neve encobriu vidas.
Avalanches ocultaram estados.
Noites longas.
Mar traiçoeiro.
Chuva assoladora.
Nevasca violenta.
Abriguei meu amor junto das flores, primavera.
Equilibrou-se a vida, e os dias e as noites medem a mesma altura.
Troquei minhas verdades por uma maçã.
Jardim do Éden.

Ao querido fevereiro


Ao querido festeiro, me proso em saudações.
Como passas rápido, feito coisa boa. Como voas livre!
Pois parte antes de terminar.
E deixa adiante a sombra de suas pressas.

És um adolescente, repetido.
Não se cansa?
Falece ainda jovem e juras com os pés juntos que se entrega puro.
Pois não é tua carne que se rasga de desejo e decompõe em samba?

Compõe minha dor em teus acordes frágeis,
Uma vez que prometeu serem imperecíveis teus dias de felicidade marcada.
Mês segundo, intercedo pelo sentido da vida, mesmo que semelhante a ti, ela seja breve.
E é verdade, os poetas consentem. Amor é sentido.

 Por Ventura dos Dias

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Relicário


Numa certa noite resolvi ficar trancado em meu quarto,
Revestido de infância, azul cor de céu, céu de primavera.
Naquela noite no meu quarto era dia.
Abri minhas gavetas, na intenção de reencontrar meus sonhos,
Na primeira gaveta, no canto direito, bem no profundo, onde só a poeira alcança encontrei uma concha.
Esta concha havia guardado o sussurro do oceano, o som do mar, de qualquer mar.
Então me lembrei das histórias que vivi ao lado do menino solitário, no mar de Ipanema. Nosso mar, Perry.
Naquela noite no meu quarto era dia.
Da segunda gaveta retirei cores, das vibrantes às mais viçosas.
E eis que daquele embaraço de cores pude reconhecer o verde, aquele verde que enfeitava o mundo do Guito, um verde refrescante, com alma viva, envolvedor.
Quando abri a terceira gaveta me surpreendi ao ver o pôr-do-sol, e sem titubear lembrei das tardes no Arpoador, do toque sutil do vento sobre o rosto, das lágrimas levadas pela brisa, dos sorrisos trazidos pela lua. 
Dobrei aquele pôr-do-sol, amassei-o gentilmente, de forma que toda aquela grandeza pudesse caber novamente na gaveta.
Antes que eu fechasse a gaveta, notei que havia um desenho amassado pelo tempo, beijando a madeira.
No papel estava escrito a palavra AMOR, e o desenho era o de uma casinha, com janela, uma porta enorme, chaminé e um belo jardim. O desenho era cinza, e a palavra quase ilegível. Então o peguei e o mergulhei no bololô de cores, engomei-o e o pus em uma moldura que enfeitava a penteadeira.
A gaveta seguinte estava uma bagunça! Estavam espalhados por ela beijos e abraços, cartas e marcas de batom. Meu primeiro carrinho, e o Mickey que herdei da minha tia. Uma pulseira que ganhei da maternidade e um caderno com dedicatórias de amigos da sexta série. Um ticket de cinema, e um cd com canções de apartamento. Ainda naquela gaveta encontrei um frasco de perfume com aroma de saudade, e os olhares que escrevi com a luz de amigos. 
Na última gaveta encontrei todas as horas repetidas, nas quais eu pensava nos amores, nos amigos, nos anos, no tempo. Encontrei cílios caídos, gastos com desejos.
Um caderno em branco e uma caneta. Os quais nunca haviam se tocado, mas pareciam se desejar por toda eternidade.
Num relance me questionei o porquê de todas aquelas preciosidades estarem guardadas, ou melhor, escondidas. Então me lembrei de uma coisa que minha mãe costumava dizer: "Dê honra, a quem tem honra."
Naquele momento percebi que minhas estantes estavam ocupadas com coisas sem importância, com artigos que apesar de seu alto valor, custavam barato. Sem pensar duas vezes derrubei todos os troféus que ocupavam lugar de destaque, substitui pelas batidas do coração do meu irmão. Desdobrei aquele pôr-do-sol e forrei o teto do meu quarto com ele, de forma que a lua e o sol pareciam se beijar, e as cores se trançavam enquanto Laiá- laiá tocava na radiola. Os mares gravados na concha se agitaram, tomaram-me no colo e me puseram a ninar. Os sorrisos, os abraços, os beijos daqueles aos quais eu amei passaram a ornamentar não só minha estante, como também minha vida. Meus sonhos saltaram das gavetas, se perderam pelo caminho, retornaram como realizações. A palavra amor não era nem retas, nem traços. Era verdade, concretude, era a estante enfeitada, era o dia varando a noite no meu quarto azul, era o menino do México, eram meus amigos dançando ciranda. Era sexta-feira.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Étreinte

ÉTREINTE PABLO PICASSO


Teu calor transgredia minha alma, gélida, fragilizada com os terrores daqui. 
Seus braços curtos esforçavam-se para envolver-me, e quando o faziam me traziam a vida.
Os lábios viajavam por meus seios, aportavam nos meus. Os lençóis nos vestiam como deuses.
Nossos corpos se despiam, profanos. Meu amor transbordava pela cama, tornava-se áurea. 
Teu signo feria-me o ego. Punha-me em lugar de presa. 
É verdade que o amor é uma guerra, ambos se ferem, ambos se doam. 
Mas estive certo que aquela cama seria cenário de um massacre. 
Onde todos os eus inventados por mim, seriam deixados. Envenenados. 
Pela verdade que saltava de teus olhos. Pelo fervor de tuas mãos.
Dobrei meus joelhos, como quem rendido. 
Entreguei-me a tua dança, ciente da morte.
Crendo que a contradição do amor me elevaria ao êxtase da vida.
Ou de uma noite qualquer.  



domingo, 12 de maio de 2013

Escárnio


Enquanto pensas que me usas
Eu te uso como nota e poesia
Enquanto pensas que me tens
Te misturo ao vinho e vem a inspiração
Enquanto meu cigarro queima
Tua poeira é o que polui o meu pulmão

Tua escuridão abraça meus cabelos
Arrancados num momento de angustia
Teu embaraço é o que precede meu desespero
Teu adeus é o que provoca minha expressão
Poesia

Os teus sonhos, pesadelos, são reais
A distância entre nós só faz crescer
Reza o tempo, e o teu beijo se desfaz
Tua luz esconde o negro da tua paz
Minha letra não cabe em sua canção
É poesia

Narre agora esse adeus,
quero partir, 
Suba a serra, minta, engane
Se disfarce
Me moteje, pegue a pista, pegue a Marta
Parta, coma todas as mulheres, se distraia
Vomite o "Eu te amo" que te disse
Fraudeie-me, e me faça acreditar nesse final.
Me belisque e vamos logo ver o mar.

Mãe

Te ver chorando presa no quarto, me mata. Queria muito ver teu sorriso durante o almoço de domingo, mas ele não foi convidado. Ouvir suas conversas com papai, desespera meu coração sentir seus suspiros preocupados trazem ao meu peito sentimento terrível de culpa. Como você deixou esses rumores entrarem em ti? Foi inevitável, eu sei. Por debaixo da porta vejo escorrer sangue, e sinto que sua vida está lhe deixando. Enquanto a minha desperta. Será que Ele aliviará todo o seu fardo? Ou lhe castigará por conta de mim? Não dormiste noite passada esperando-me chegar, eu sei que o que me disse era da boca pra fora. Não se preocupe,meu coração está ocupado com suas doces palavras, logo não há espaço para palavras não pensadas. Não posso mais me esconder dentro de armários, ou caixões. Terás de ser forte para suportar, mas eu estarei contigo mãezinha. Não ligue para o que os outros dirão, eles não sabem o que falam. Estão presos a preconceitos e logo serão massacrados por sua própria cegueira. Em vez disso me beije, e me aceite. Prometo cuidar de suas feridas, principalmente as que causei. Nunca te abandonarei, nem que todos os meus sonhos ousem se realizar, pois eles só serão meus sonhos se você estiver presente. Ainda hei de honrar cada renuncia que fez por minhas causas. As lágrimas que derramou durante sua vida, transformarei em orgulho mamãe. Vencerei, e sei que estarás comigo. Sopro em ti, amor e vida. Peço a ti perdão, por não ser modelo perfeito de filho inexistente. Peço perdão pelas promessas não cumpridas,e juro lutar para não repetir os mesmos erros. Decidi cuidar de ti enquanto beiras meu mar,enquanto teus rios alimentam meu oceano, assim como leite que de ti saia me alimentava. Sem querer fiz tudo, mesmo que quisesse. Sem querer mentia, e desmentia. Até sem querer lhe amei. Mas hoje amo por escolha, lhe amaria mesmo que teu sangue não circulasse por minhas veias. Amor, viramos sinônimos de eternidade, e por ela caminharemos juntos. Grato, por tudo. Aqui está seu suco e um lenço. Enxugue as lágrimas e o suor. Vou lhe fazer feliz,mesmo que a tristeza aponte em mim. Seu sorriso é irresistível, e um convite já lhe fora enviado. Amor é pouco.

Mem de Sá

Era manhã, domingo e maio.
Domingo segundo, dia de calor e céu limpo.
O prédio amarelo, enfeitado de limo e marcas de infiltrações estava cinza.
A Mem de Sá estava fria. As árvores nuas.
Envolto em lençóis e cobertores estava João. 
Afogado em lembranças e saudade.
Há quatro meses ele havia perdido sua mãe, em um acidente de carro.
Ela havia bebida uma ou duas doses de conhaque, para esquecer o tempo e suas feridas quase fechadas.
Pegou o carro, um chevette cinza 1988, e saiu dirigindo sob a lua cheia. Planejava ir ao infinito. 
Não passou da Av. Niemeyer. Encontrou-se com o mar revolto, despencando tragicamente pelo paredão rochoso. 
A dor tinha feito morada em João. Um menino simples, de cabelos cacheados, olhos de jabuticaba e coração maior que o mundo. João parou de dirigir, apegou-se ao seguro desemprego, e já devia dois meses de aluguel. Tinha terminado com o namorado, mesmo amando-o com toda sua alma. 
Sua barba havia crescido, ainda que falhada. Suas roupas estavam gastas e sua única companhia eram os livros. 
Aquela manhã parecia mais difícil do que todas as outras, as memórias de toda uma vida resolveram confrontar a mente traumatizada de João. Todos as manias, graças e gostos de sua mãe vinham sobre ele. E a cama lhe parecia o melhor - ou o menos pior- refúgio. Era dias das mães. Os restaurantes estavam cheios, lotados para ser honesto, ele teria que fritar ovos. Mas não tinha fome, então tanto fazia. 
A cama então estava molhada com a chuva de lembranças maternais. João levantou-se apegado ao maior legado deixado por sua mãe. E que por algum motivo ele havia ignorado durante esses meses de luto. Sua mãe era feita de esperança. Mesmo em suas angústias e frustrações ela permanecia inabalável, essa era a mensagem que sua mãe lhe passava, de que tudo era passageiro, exceto o amor. 

Naquele instante ele sentiu a presença intensa e aconchegante se sua mãe. Justo por ter entendido que o amor supera o tempo, vence a morte, cicatriza as feridas. João não estava só. E não havia motivos para lamentos. 

João então lavou seu rosto, enxugou as lágrimas, correrá até a primeira floricultura que por sorte ainda estava aberta. E escolhera as mais belas rosas amarelas, as preferidas de sua mãe,  e voltara pra casa, vestido em pijamas azuis, distribuindo sorrisos aos passantes. 
O prédio amarelo enfeitado de limo e marcas de infiltrações estava alegre e iluminava a Mem de Sá. 
As janelas da quitinete de dois quartos, foram abertas. As roupas de cama trocadas, flores enfeitavam todos os cômodos. João passeara por seu cantos, cobrindo o ambiente com poemas e cânticos. Em suas paredes florais ele pendurava risos e carinhos. A luz do sol passara a ser bem vinda. 
No anoitecer João foi ao cinema ver os filmes bobos paridos por Hollywood. 
Ele havia ligado para Dinho, se encontrariam como bons amigos, sairiam dali para um bom restaurante - de culinária italiana. João estava disposto a reatar todos os laços de amor que havia rompido por conta do luto. Se os encontrarem pelas ruas não perguntem detalhes sobre o filme, eles estavam fazendo poesia. 

sábado, 11 de maio de 2013

Lar

Estive caçando imagens que despertassem em mim desejos - ganho horas com essa mania. Desejos de liberdade, anseio por asas - mesmo que imaginativas. Desejos mais latentes e presentes pelo amor, que esforço-me para ter a cada dia - ser e ter, e já tenho dito isso. 

Garimpei essa ilustração lindíssima, que apesar da simplicidade, carrega uma grande verdade:  "O amor transforma uma casa num lar."



Imediatamente lembrei de Home do grupo californiano Edward Sharpe & The Magnetic Zeros, que aliás é uma das minhas músicas favoritas. Por mil motivos, o principal deles é a letra. Uma declaração de amor lindíssima, que poderia se resumir no trecho: " Home is wherever I'm with you."
Ah! O diálogo  durante a canção é uma fofura. Vejam o vídeo! O clima no estúdio é delicioso. 


Diante dessas graciosidades ligadas ao lar eu trouxe a memória uma nota muita amada por mim.
Que fala justamente sobre a minha casa, a casa dos meus sonhos. Uma moradia sentimental. 

Entra

Na minha casa eu quero uma biblioteca,
Com janelas bem abertas, cruzadas pelos raios do sol da terceira estação.
E uma vista para o mundo, grande, propenso a nós.
Quero ter meus livros espalhados, bilhetes já mofados, de amores de verão.
Eu quero ter uma varanda com cheiro de poema infantil, rimas doces e primárias.
E o céu melhor do mundo sendo teto e proteção.
Uma vivenda segura pra qualquer inspiração se sentir em paz.
Livre e dada, a qualquer um.
Um lar, reduto de traquinagens, onde qualquer coisa se torne motivo pra roda, e ciranda.
Quero a chaleira no fogão, e o café no ponto. Extra forte, e ainda assim suave.
E o cheiro invadindo a sala repleta de pufes coloridos, jogados de uma qualquer forma organizada.
Eu quero o Samuel tocando seu violão, ainda que despretensioso, Pedro presente, ainda que seja nos quadros. Quero as meninas conversando sobre luzes, cores e fuxicos.
 E seus cachos atrapalhados enredados em mim.
Quero os melhores filmes em exibição – aqueles que são um ótimo motivo para pipoca, chocolate, apertos e cobertores.
E sorrisos marcados como batom em guardanapos.
Quero nossos condões causando vertigem nos vizinhos. Tumultuando o sistema.
E um sistema de ar refrigerado eficiente, que reprima o suor, jamais o calor. Mas que também dê vontade de ficar juntinho.
Quero um quarto com uma cama de casal do tamanho do meu coração – pra caber quem me faz bem. E como de costume, Cássio e Alexandre emaranhados.
Quero uma morada onde meus amigos possam se sentir refugiados, livres da monotonia, do tédio e das tristezas e frustrações que me parecem comum hoje em dia.
Um lugar onde nossos sonhos sejam maior que qualquer lamento.
Quero um pôster da Marilyn no corredor. Flores no banheiro. E o Diego na cozinha fazendo o melhor estrogonofe do mundo – hm!! Salva de palmas!- Quero aquele whisky, caso alguém se fira, eventualmente. E muitas noites desperdiçadas com Esconde-esconde, Bastardos Inglórios...
Quero a Olívia com uma câmera na mão, filmando nossos tons. Roteirizando nosso fascínio.
Fotografias perdidas por dentre os livros, grampeadas em qualquer branco de parede.
Um seio de revoluções, berço para as mais belas criações.
Onde nasçam histórias que dariam filmes, casais que deságuem em lindos filhos. Canteiros de rosas e sambas.
Um hotel para abrigar amigos de longe, parceiros de luta. Aparelhos.
Uma casa, um bar. Para pensarmos aquilo que fomos e nos projetarmos pela eternidade.
Onde o tempo também seja amigo, parte da turma, também remédio.
Quero um quarto para guardar abraços, beijos e conselhos. De maneira que eles permaneçam vivos, lembrados. Mosteiro do nosso amor.
Um guarda-roupa que não comporta minhas roupas, mas que ama aquelas que comprei com a Hannah, em nossa ultima viagem. 
Quero gargalhadas que ocupem os corredores.
Quero saraus todas as terças e vigílias às sextas. Orgias à la carte. Lençóis cor de pérola com cheiro de lavanda – como o Cássio gosta.
Quero Chico e os clichês da juventude juntos num altar.
As polaroides que eu tanto gosto expostas na prateleira da sala de estar. E uma parede com os padrões feitos pelas Brunas e pela Letícia.
Quero baús com as palavras de Dalai Lama, as receitas da minha vó e as lembranças de Rimbaud e Lorca.
Relógios inspirados em Dalí. E um estêncil pedindo “Mais amor, por favor.”
Em algum canto, eu sei, vão ter copos meio vazios de cerveja e outros tantos meio cheios de mate.
Eu quero a felicidade minha, a nossa.

E o quintal? Como pude esquecer?!
Quero Tulipas, orquídeas e margaridas – como não?! –
Quero um balanço azul, e outro amarelo.
Uma fonte cercada de mudas de pimenta, enfeitada de moedas e quimeras.
Um lago cristalino, de água pura. E as roupas no varal.
Samambaias.
E saudade.

Casamento


Casa com afeto.
Casa comigo?
Vou pintar uma parede da sala de amarelo.
Amarelo ouro.
Caso eu não chegue cedo, pede pizza.
Mas tem sonho na geladeira.
Caso.
Domingo você faz estrogonofe?
Faço.
Casa cheia, todos os amigos na sala amarela.
Caso eu me esqueça me lembre de tirar uma foto.  

Coisas simples

Eu ainda insisto em catalogar nos meus cadernos amigos, ou em qualquer pedaço de papel, detalhes da vida que me fazem derreter em lágrimas, gargalhar mentalmente, suspirar - na certeza de que se está vivo - ou sorrir um sorriso de satisfação momentânea, plenitude.
São coisas como a voz da minha vó ao telefone, quando por acaso, ou por conta de sua intuição, ou ainda pela forte ligação que nos pertence, ela liga quando eu mais preciso. Seu timbre me parece celestial.
Tão divino quanto o tempero de minha mãe, que é semelhante a um beliscão necessário para saber que não está sonhando. É o sabor de casa, o gosto do pertencimento mútuo. De ser e ter.
Coisas como a aprovação do meu pai, o sincero "eu te amo" do meu irmão e a gargalhada escandalosa da minha irmã.
( Eu realmente precisava começar citando minha família. As fontes do amor.)
Eu lembro de me sentir pleno em algumas orações. Meus momentos de devoção. Que com o tempo se tornaram raros, quase em extinção. Mas que por algum motivo não consigo ignorar ou esquecer.
Eu ainda desejo ser um grande amigo de Jesus. Não houve poema maior que Ele.

Coisas simples como ver as estrelas, mesmo sem saber a qual constelação elas pertencem.
( Especialmente hoje o céu do Rio de Janeiro está lindo. Sei disso por que acabei de me sentar ao chão e contemplar este mesmo céu, pontilhado de estrelas - umas mais brilhantes que as outras, mas todas gloriosas- enquanto tomava suco de laranja na garrafa e calçava meus mocassins preferidos, já gastos.)
Coisas como o Arpoador, especial em todas as estações do ano, indiferente ao clima.

Muitas coisas provocam em mim esse desfastio, entre elas a pele sensível ao toque, o lábio sensível ao toque, um instrumento sensível ao toque, a tela sensível ao toque.
O bigode, rastro de leite; As gotas de chuva retidas pelas lentes dos óculos; O cheiro do café, que toma a casa inteira. O Amigo, ao qual classifico como amante. O sol das sete, da manhã e do horário de verão. A obra de Egon Schiele, as crônicas de Neil Gaiman e a música de Corinne Bailey. Os gominhos perdidos no suco de laranja. As rosas deixadas nas páginas dos livros, memórias secas. Os versos de Lorca, seu amor por Dalí. Nessas coisas pequenas quero deleitar-me.

No fim a felicidade é mesmo a herança, a união desses quês.
A reunião das simplicidades que acumulamos no entorno da vida. E incluo inclusive as tristezas e os desapontamentos, pois não há gozo maior que o de ter dado a volta por cima.